Crítica: Mare of Easttown

Investigando as dores do passado

Quando uma minissérie, não muito acessível até então (agora está disponível no HBO Max), começa a fazer sucesso no boca a boca, alguma coisa boa tem ali. Ainda assim, não esperava encontrar o show mais completo do ano, onde dificilmente surgirá algo tão bom quanto em 2021. São 7 episódios precisos, que seguem uma narrativa absurdamente bem amarrada.

Nos subúrbios de Filadélfia, Mare (Kate Winslet) busca solucionar o assassinato de uma jovem, enquanto tenta impedir que sua própria vida desmorone. É um grande estudo de uma personagem que só cresce aos nossos olhos. Mare é aprisionada por um constante sentimento de culpa e está cercada de luto, de perdas e seus traumas caminham juntos em suas investigações. Tudo, no fim, vira uma questão pessoal, de acertos com o passado, de perdão próprio. Neste sentido, é interessante como o ótimo texto explora o acontecimento em uma cidade pequena, onde os moradores se conhecem, sabem um do outro e grande parte deles são suspeitos de cometer um crime. Melhor ainda, é quando todos esses personagens recebem atenção do roteiro e todos ali possuem uma função, um momento.

Em “Mare of Easttown” nada parece excesso, uma sobra. Cada pequeno detalhe terá sua importância na trama, mais cedo ou mais tarde. É, ainda, brilhante em como a minissérie consegue abraçar essa pluralidade de histórias e sentimentos, conseguindo ser doce, engraçada e ao mesmo tempo tão sensível, tão emocionante. O roteiro não se perde e sabe trazer cenas do cotidiano, sem esquecer de seus mistérios e da humanidade de cada indivíduo. Tudo tem seu tempo em cena e flui perfeitamente bem. Se tudo isso não fosse o bastante, a trama surpreende e ganha mais pontos ao não segurar seus segredos até o último segundo. Não usa do suspense como muleta para manter a audiência atenta. Cada episódio tem uma grande revelação e acompanhamos as consequências de cada uma delas. Aquele “depois” que os roteiros sempre nos omitiram.

Kate Winslet já é a atriz do ano. Que papel incrível. É lindo o que ela faz cena e o que ela entrega. Melhor ainda é quando ela funciona perfeitamente bem com todo o elenco. Sua troca com Evan Peters, Guy Pearce e principalmente com Jean Smart e Julianne Nicholson é de outro mundo. As duas últimas atrizes, inclusive, já merecem serem reconhecidas nas próximas premiações também, além de Kate, obviamente. Algo que me encantou muito nesses personagens é que o texto não os limitava em ser “a detetive 24 horas por dia”, “a mãe”, “a melhor amiga”. Todos vão além, tem camadas a ser exploradas. O humor, com certeza, ajuda nesta identificação e nessa afeição que passamos a ter com todos eles. A comédia aqui é certeira e vem sempre para preencher, revelando esses instantes afetuosos entre família e amigos. Vem de forma natural, como parte das boas conversas.

“Mare of Easttown” é completa. Traz uma história não tão original, mas a forma como a traz é que nos fascina. É brilhante e não há um ponto sequer fora da curva. Respeita seus bons mistérios e seus grandes personagens. Chegar aqui pela Kate Winslet já vale muito a pena, a sorte é que a minissérie entrega muito mais, inclusive um final fantástico que faz toda essa jornada ser recompensada e ser, definitivamente, um marco desse ano.

NOTA: 10

País de origem: EUA
Ano: 2021

Disponível: HBO Max
Duração: 7 episódios / 440 minutos
Diretor: Craig Zobel
Roteiro: Brad Ingelsby
Elenco: Kate Winslet, Julianne Nicholson, Jean Smart, Evan Peters, Guy Pearce, Angourie Rice

Crítica: A Caçada

A arena virtual ganha vida.

“O filme mais falado do ano é o filme que ninguém viu”. É assim que a divulgação de “A Caçada” nasceu, principalmente depois que o presidente Trump demonstrou estar incomodado com a obra em sua conta do twitter. Ainda que seja bem menos polêmico do que se vendeu, o longa traz uma sátira política que pode, digamos, ofender muitos lados e esta é sua grande ousadia. Ao ironizar tanto os republicanos quanto os democratas, é possível que um grande grupo saia um tanto quanto ofendido de seus discursos. Mesmo que seja uma piada, a carapuça pode servir em alguém.

Em nenhum momento a obra se leva a sério ou tenta discutir algo com profundidade. Isso não é negativo principalmente por deixar claro, desde a primeira sequência, de que estamos diante de algo forçado e com intenção de sarcasmo. Logo no começo, algumas pessoas acordam em um local desconhecido e percebem que são alvos de caça de um grupo fortemente armado. Em uma vibe bem Bacurau e sem entender bem o que está acontecendo, todos passam a lutar pela sobrevivência. Entre cabeças explodindo e uma perseguição eletrizante, é interessante como o roteiro vai destruindo – através de mortes inesperadas – vários arcos narrativos que previamente vamos construindo em nossa cabeça. Da mocinha indefesa ao iminente casal romântico. A imprevisibilidade é a grande arma e nos deixa apreensivos sobre qual será exatamente o rumo daquela jornada. É assim que o filme demora a revelar sua verdadeira protagonista, que ganha força pela expressiva Betty Gilpin.

O extermínio, logo se explica, foi organizado por um grupo da elite liberal que decide matar, de forma gratuita, uma classe rural menos favorecida, todos eles assumidamente republicanos. Assim que as peças desse tabuleiro ganham nomes e seus ideais são expostos, “A Caçada” acaba por trazer um certo desconforto, principalmente quando não é a forma como vemos a situação política atual, sendo incômodo ver os “liberais” em tal posição. É uma obra provocativa, que faz piada daquilo que evitamos ver. Que satiriza a hipocrisia que nem sempre olhamos. Os democratas revelados aqui vivem na elite, distantes das imperfeições do mundo que tanto gostam do apoiar. Praticam com voracidade aquele típico ativismo de sofá. Eles querem salvar a sociedade mas estão confortáveis demais na redoma de vidro em que vivem. Os republicanos também não surgem como vítimas e de certa forma, as ironias expostas aqui se assemelham e muito ao movimento de direita que temos no Brasil. São pessoas agressivas no mundo virtual, que criam teorias incabíveis, compartilham informações tolas e criam batalhas em um simples comentário de internet. Ainda que o roteiro se apoie em estereótipos e em versões caricatas desses dois grupos, a piada funciona e deixa um gosto amargo por suas provocações. O embate final é ridículo, no bom sentido, pois expõe com toda sua ironia como seria esse confronto real entre esses “monstros politizados” que nascem nas redes sociais.

A cabeça por trás desse audacioso projeto é Damon Lindelof, conhecido por séries como Lost, The Leftovers e Watchmen. Apesar dos ótimos discursos, “A Caçada” soa quase como um bom esboço. Nenhuma ideia cresce ou ganha a atenção devida. A protagonista nasce e termina como um grande enigma e justamente por isso é difícil criar alguma empatia por ela ou tentar desvendar esse universo ao seu lado. Apesar da boa atuação, estamos sempre distantes dela, nunca no mesmo passo. A violência e impacto de seus minutos iniciais também somem e dão lugar a uma jornada sem a mesma força que seu poderoso e imprevisível começo. A adrenalina, a aflição e tudo aquilo que poderia crescer e se tornar um grande baque na obra, segue um rumo instigante sim, mas longe do caos que anuncia lá em sua poderosa introdução.

A sequência final é divertidíssima e facilmente nos remete a um dos embates mais marcantes de Kill Bill. Tem umas reviravoltas interessantes e apesar de não ser tão potente quanto prometia, temos aqui um entretenimento que vale a pena, que consegue prender a atenção e nos manter atentos à suas ótimas sacadas. Vejo que a intenção aqui não é atacar nenhum idealismo político mas sim criar um cenário satírico onde é colocado em combate todos os valentões politizados da internet que vomitam versões de uma verdade que somente eles acreditam. Nesse universo protegido onde não possuem nome, apenas a coragem de usar caps lock sem nenhum senso de justiça.

NOTA: 7,5

  • País de origem: EUA
    Ano: 2020

    Título original: The Hunt
    Duração: 107 minutos
    Distribuidor: Universal Pictures
    Diretor: Craig Zobel
    Roteiro: Damon Lindelof, Nick Cuse
    Elenco: Betty Gilpin, Hilary Swank, Wayne Duvall, Ike Barinholtz, Emma Roberts