Crítica: A Mulher na Janela

Colcha de retalhos

Difícil analisar “A Mulher na Janela” porque, claramente, é uma colcha de retalhos, porcamente costurada. Problemas na produção, roteiro reescrito, cenas regravadas. Tudo isso acaba se refletindo no resultado final e o que vemos, infelizmente, é um experimento mal sucedido e que já indicava dar errado lá no início. Não venho crucificar o trabalho do cineasta Joe Wright (Orgulho e Preconceito), porque é nítido o quão competente ele é e não sei o quanto dele realmente existe dentro desse filme. Se houve alguma intenção por parte do autor, que soa como o estudo da psique da protagonista que precisa investigar seus próprios traumas para entender um crime, tudo isso se desfaz e se transforma em um exagerado clímax de terror, com sangue, tensão e tudo o que a obra, até então, se negava a ser.

Baseado no best seller de A. J. Finn e com claras referências ao cinema de Hitchcock, “A Mulher na Janela” desenha um suspense clássico, onde a perspectiva da protagonista não é das mais confiáveis. Ana (Amy Adams) é uma psicóloga infantil que sofre de agorafobia, o que a impede de sair para fora de casa. Ela enfrentou grande perda no passado e se vê estagnada nesta tentativa de se reerguer. A grande virada é quando ela acredita ter presenciado um assassinato no outro lado da rua, precisando provar sua sanidade e sua palavra contra todos aqueles que negam suas acusações.

A obra pouco explora esse voyeurismo da personagem, que sabe exatamente quando apontar sua câmera para o vizinho e avistar algo duvidoso. E assim, tudo nos é revelado às presas e pouco conseguimos desfrutar dos mistérios ou desta paranoia. O roteiro tem pouco apego sobre o suspense e revela seus bons segredos com desdém, com pouca importância. Diminui o máximo que pode a complexidade da trama e desses personagens, que pouco nos causam interesse. O grande problema do texto, ao fim, é nunca conseguir estabelecer essa relação que existe entre todos eles, enfraquecendo toda a trama e suas viradas, que jamais causam algum impacto.

A cor rosa, muito presente nas cenas, representa a inocência, a fantasia. Como se o que Ana vivesse fosse um sonho, uma ilusão. Apegada aos filmes que assiste, assim como sua negação a tudo o que é real, ao lado de fora. A boa intenção de “A Mulher na Janela”, além de concentrar toda sua trama em um único ambiente, basicamente, é nos fazer questionar essa ilusão, se o que acontece além daquelas janelas é realmente como a protagonista diz. Apesar das boas ideias, a obra conta com um roteiro preguiçoso e tudo é resolvido de maneira insossa, como a solução que encontra para o transtorno da protagonista ao fim.

O grande momento do filme é quando entra em cena Julianne Moore. Em poucos minutos, a atriz entrega todo o sentimento e honestidade que falta ao resto. O jovem Fred Hechinger também se destaca mesmo com o pobre roteiro, entregando algo notável. “A Mulher na Janela”, apesar de contar com um bom ritmo, é uma bagunça desgovernada que não se decide o que quer ser. Na ausência de um único diretor, se perde no próprio conceito, na própria linguagem. Ter altas ambições não adianta se não existe um objetivo a seguir. Um grande equívoco.

NOTA: 6

País de origem: EUA
Ano: 2021
Título original: The Woman in The Window
Disponível: Netflix
Duração: 101 minutos
Diretor: Joe Wright
Roteiro: Tracy Letts
Elenco: Amy Adams, Fred Hechinger, Gary Oldman, Wyatt Russell, Julianne Moore, Anthony Mackie, Tracy Letts

Crítica: Era Uma Vez um Sonho

O peso das lembranças

Baseado no livro de memórias de J.D.Vance, “Era Uma Vez Um Sonho” mergulha nas dores de uma família em duas épocas distintas. O mais novo filme de Ron Howard, em parceria com a Netflix, diz muito sobre como o meio em que nascemos define grande parte de nosso destino. O peso das lembranças do protagonista é um fardo que precisa ser constantemente superado, ainda mais quando, anos depois, prestes a dar um grande passo na carreira, ele precisa recuar e retornar a sua cidade Natal para fazer aquilo que destruiu parte de sua infância, salvar sua mãe de seus vícios e surtos.

Ainda que a obra seja carregada de intenções nobres e tem lá seus momentos de forte comoção, o roteiro assinado por Vanessa Taylor (A Forma da Água) é muito esquemático. Existe uma construção repetitiva e calculada para causar impacto no público. Neste sentido, os flashbacks soam como uma muleta frágil da narrativa, sempre muito bem posicionados na intenção de justificar tal comportamento futuro de algum personagem. Para falar sobre os altos e baixos de uma família, o texto se perde em tantas oscilações, risivelmente indo do ódio à compaixão para suas conclusões simplórias. É assim que se dá espaço para gritarias, choros e tudo o que a produção acredita que possa impressionar a Academia do Oscar. É forçado e nada vem de forma natural ou honesta.

Amy Adams é uma atriz fantástica e com muita pena digo que é vergonhoso o papel que ela desempenha aqui. É triste vê-la se desgastando em sequências tão caóticas, de pouca inspiração. Glenn Close, infelizmente, também se perde no meio da caricatura. Existe entrega das duas, mas o roteiro é pobre demais para extrair algo de bom delas.

Ron Howard, que já vem de uma carreira inconstante, retorna com a mão mais pesada do que nunca e aqui peca, constantemente, pelo excesso. Ainda que seja piegas em todo seu discurso do sonho americano destruído, “Hillbilly Elegy” tem boas intenções ao falar sobre família, legado e perdão. É preciso destacar alguns pontos, também, como a sempre boa presença de Haley Bennett e a ótima trilha sonora composta pelo veterano Hans Zimmer. Sinto que a obra tem bom ritmo, conseguindo manter o público atento, apesar dos erros.

NOTA: 6,5

  • País de origem: EUA
    Título origina: Hillbilly Elegy
    Ano: 2020
    Disponível: Netflix
    Duração: 116 minutos
    Diretor: Ron Howard
    Roteiro: Vanessa Taylor
    Elenco: Amy Adams, Gabriel Basso, Glenn Close, Owen Asztalos, Haley Bennett, Freida Pinto