Crítica | Apresentando os Ricardos

Um caos desinteressante

Cinebiografia da Amazon Prime, “Apresentando os Ricardos” nos revela um pouco dos bastidores de uma das maiores sitcoms da TV. “I Love Lucy” fez um sucesso estrondoso nos anos 50 e era protagonizado por Lucille Ball e Desi Arnaz, casados também na vida real. O filme nos leva a vivenciar a semana mais conturbada que tiveram durante as gravações quando, após inúmeras acusações da mídia, a vida profissional e pessoal de ambos é colocada à prova.

Aaron Sorkin, que aqui assina a direção e roteiro, se perde bastante em suas tantas intenções. Ainda que ele seja ótimo ao dar vida para o falatório dos bastidores e nos mostrar um pouco do dia a dia desse universo que não vimos na TV, inclusive levantando pautas necessárias como machismo e xenofobia, nunca sabe onde pretende chegar. “Apresentando os Ricardos” é um filme estranhamente confuso, onde uma série de eventos são condensados em forma de flashbacks sem muito contexto, jamais seguindo um raciocínio muito lógico – que vai desde acusação comunista à traição – ou que nos cause algum tipo de interesse.

Nicole Kidman acaba sendo o grande brilho da produção, que se diverte e encontra vida distante de uma simples imitação. Ainda que sua presença nos cative, o universo que sua personagem habita é extremamente caótico e sem muita alma. Assim como sua maquiagem, tudo soa fake e travado demais. Nem mesmo o timing cômico, discutido inclusive dentro do texto, funciona nos diálogos. Ao menos, temos bons atores ali, extraindo ótimos momentos de Javier Bardem e Nina Arianda, que surpreende.

“Apresentando os Ricardos” tenta revelar os bastidores da TV e a vida pessoal do casal, mas o roteiro não encontra sintonia entre essas pontas, forçando uma dramaticidade que não convence e entregando, ainda que embalada em uma produção elegante, uma bagunça verborrágica imensamente desinteressante.

NOTA: 6,0

País de origem: EUA
Ano: 2021
Título original: Being the Ricardos
Duração: 132 minutos
Disponível: Prime Video
Diretor: Aaron Sorkin
Roteiro: Aaron Sorkin
Elenco: Nicole Kidman, Javier Bardem, J.K. Simmons, Nina Arianda, Alia Shawkat, Clark Gregg

Crítica: Os 7 de Chicago

O espetáculo da fórmula

O roteirista Aaron Sorkin chamou a atenção da crítica, há dez anos atrás, quando usou do tribunal para investigar a mente de Mark Zuckerberg no irreparável “A Rede Social”. Ele retorna a este ambiente para contar mais um evento real, desta vez, focando no longo e histórico julgamento dos “7 de Chicago”, quando um grupo de ativistas foi acusado de incitar tumulto enquanto protestava nas ruas contra a Guerra do Vietnã.

O filme quase todo é centrado dentro do tribunal, com alguns pouquíssimos flashbacks que nos situam ao que realmente aconteceu. Sorkin é mestre nessas longas discussões, contando sempre com um texto verborrágico e de poucas pausas. Ainda que narre um acontecimento do final da década de 60, os debates que consegue extrair de tudo isso é extremamente atual e relevante. É assustador e causa incômodo, não apenas pela postura violenta da polícia, como o despreparo do juiz diante do caso, criando um espetáculo do qual ele já tem certo sobre quem são os culpados e as vítimas da história.

Apesar das boas reflexões que deixa, “Os 7 de Chicago” é formulaico e frustra ao se deixar cair nas armadilhas do subgênero. O falatório é calculado e mais clama por um Oscar do que por honestidade. O grande pecado do texto é se apegar ao julgamento e esquecer daqueles que estão sendo julgados. Passamos o filme todo vendo detalhes ricos das discussões sem jamais conhecer os verdadeiros personagens da história. Aaron Sorkin pode demonstrar grande conhecimento de tribunais, mas esquece das vidas que preenchem aquele espaço. Sabemos o que eles fizeram, mas jamais sabemos quem eles foram.

Como diretor, Sorkin também segue as fórmulas e não reinventa aquele ambiente, sendo visualmente tedioso. Ao menos ele acerta na condução do elenco, extraindo ótimas atuações principalmente de Sacha Baron Cohen, Yahya Abdul-Mateen II, Frank Langella e Mark Rylance. Eddie Redmayne me surpreendeu também. Havia tempo que não o via tão livre de seus tantos trejeitos.

Ao fim, o diretor ainda nos presenteia com um momento surpreendentemente piegas, com trilha sonora pesada e bastante desconexo com o que havia apresentado até ali, optando por uma dramaticidade desastrosa que diminui a força de seus bons discursos.

NOTA: 6,5

  • País de origem: EUA
    Ano: 2020
    Duração: 129 minutos
    Título original: The Trial of the Chicago 7
    Distribuidor: Netflix
    Diretor: Aaron Sorkin
    Roteiro: Aaron Sorkin
    Elenco: Eddie Redmayne, Joseph Gordon-Levitt, Mark Rylance, Sacha Baron Cohen, Jeremy Strong, Alex Sharp, Frank Langella, Michael Keaton, Yahya Abdul-Mateen II
    , John Carroll Lynch