Crítica: Loucos por Justiça

A imprevisibilidade milagrosa da vida

Uma grata surpresa de 2021, “Loucos por Justiça” vai muito além da história de luto e vingança do qual tão bem já conhecemos. É uma obra bem amarrada, que se revela, aos poucos, uma sensível e surpreendente dramédia.

A trama gira em torno de coincidências e como nossa jornada é impulsionada por atos improváveis. É curioso como, ao centro de tudo isso, está Otto (Nikolaj Lie Kaas), um homem que trabalha com estatísticas e cálculos de probabilidade. Após estar no exato vagão colidido de um trem que deixa algumas vítimas, ele se coloca na missão de provar que tudo aquilo não foi um acidente e tudo teve uma razão para acontecer. É então que ele entra em contato com Markus (Mads Mikkelsen), que perdeu a esposa nesse mesmo trem e decide ir atrás de vingança, seguindo os cálculos precisos de Otto, convictos de se tratar de uma ação extremista de uma gangue.

A grande graça da obra é acompanhar a evolução dessas relações tão improváveis, de um grupo de homens comuns buscando por justiça. O humor é dosado, mas diverte nessa jornada insanamente intrigante. O roteiro do renomado Anders Thomas Jensen (Em Um Mundo Melhor, Depois do Casamento) é esperto e navega bem por diversos gêneros. Fala, também, com bastante sensibilidade sobre luto, ao colocar em ação esses personagens solitários, que perderam alguém e buscam, no meio do caos, uma razão, uma pessoa a ser punida. É sempre mais fácil quando temos alguém a atribuir uma culpa e não viver com o fardo do “tinha que ser assim”, “aconteceu porque tinha que acontecer”.

Tem muita sintonia esse elenco que faz tudo ser ainda mais agradável de se acompanhar. Mads é dono de um carisma imenso, mesmo quando surge tão carrancudo. Sua presença tem força, sempre. Os coadjuvantes são incríveis também, se destacando o brilho de Nikolaj Lie Kaas, que emociona na pele do desajustado Otto. Esse homem que usa de seus estudos e dados para se certificar de que nem tudo é por acaso, que nem todo acidente é uma simples coincidência. Ao fim, no entanto, esses laços de amizade que se fortalecem revelam a imprevisibilidade milagrosa que a vida pode ser, um evento do destino que reúne pessoas tão distantes no mesmo rumo. Encontrar a lógica na vida pode ser um ato desgastante. Mesmo que liguemos todos os pontos, nada fará sentido. Nunca fará.

NOTA: 9,0

País de origem: Dinamarca
Ano: 2020
Título original: Retfærdighedens Ryttere / Riders of Justice
Duração: 116 minutos
Diretor: Anders Thomas Jensen
Roteiro: Anders Thomas Jensen
Elenco: Mads Mikkelsen, Nikolaj Lie Kaas, Andrea Heick Gadeberg, Nicolas Bro, Gustav Lindh

Crítica: Druk – Mais Uma Rodada

Uma dose diária de vida

Apesar de ter vencido o Oscar de Melhor Filme Internacional no Oscar, fui sem grandes expectativas, talvez porque a premissa não tenha me agradado. Mas aí aconteceu que encontrei uma obra muito diferente do que esperava, maior do que eu esperava. “Druk” me preencheu.

Quatro amigos e professores, vivendo pela inércia da rotina, decidem provar uma tese de que, ao ingerir uma quantidade específica de álcool todos os dias, se tornariam mais bem sucedidos, mais confiantes em suas ações. A partir deste inusitado experimento, Martin (Mads Mikkelsen), em meio a suas crises da meia idade, renasce, buscando se reconectar com a vida e com a juventude que deixou para trás.

O cineasta Thomas Vinterberg cria aqui uma obra ousada, que caminha por rumos delicados. Sem endemonizar o álcool e sem ignorar o lado maléfico do ato, ela encena uma revigorante celebração da vida. Saiba beber com moderação, mas viva o máximo que puder. Ele sabe como conduzir esse discurso sem cair em um campo perigoso e irresponsável, entregando um produto elegante, divertido e sutilmente comovente. É um dos projetos mais pessoais da carreira do diretor e que ganha um tom ainda mais sensível pela triste história por trás dele. Vinterberg faz um filme festivo quando perdeu o mais precioso que é sua filha. “Druk” é seu grito, sua força, sua razão de ainda estar em pé.

O roteiro é fantástico e nos convida a cada passo. É interessante como cada capítulo da tese escrita pelos amigos se torna um capítulo à parte no filme. Desta forma, há uma dinâmica muito bem conduzida pelo diretor, que nos instiga a ficar, a querer ver a conclusão dessa loucura. Somando a isso, Mads Mikkelsen é imensamente carismático e nos traz ao seu lado nesta jornada libertadora. A obra, que se inicia com um grupo de jovens se divertindo, nos faz a todo tempo nos questionar em qual fase da vida desistimos desse parque de diversões, quando foi que decidimos sermos tão sóbrios, tão descrentes. A cena final é gigante! Nos faz querer dançar por aí, acreditar mais em nós mesmos. Uma bela celebração aos dias que nos restam.

NOTA: 9,5

  • País de origem: Dinamarca
    Ano: 2020
    Título original: Druk
    Duração: 117 minutos
    Diretor: Thomas Vinterberg
    Roteiro: Thomas Vinterberg, Tobias Lindholm
    Elenco: Mads Mikkelsen, Lars Ranthe, Magnus Millang, Thomas Bo Larsen