Crítica: Espontânea

Quase certamente

Baseado no livro homônimo de Aaron Starmer, ‘Spontaneous’ é um filme teen um tanto quanto incomum e surpreendente. Guiado por um humor ácido e muito sangue, o longa navega por diversos gêneros com ousadia, trilhando com naturalidade entre o romance, terror e uma distópica ficção científica. Trata-se de um desafio e tanto, mas que é brilhantemente comandado por Brian Duffield, a mente por trás de outros produtos explosivos como “A Babá” e “Amor e Monstros”.

Na trama, um grupo de alunos começa a explodir, literalmente. Sem explicações, eles passam a ser alvos de estudo para uma possível cura e a viver com o receio de serem os próximos a terem seus miolos estourados. Somos levados a este inusitado cenário pela irreverente Mara, muito bem defendida pela atriz Katherine Langford, que parece não levar tudo isso muito a sério e que acaba se apaixonando por Dylan (Charlie Plummer, no mesmo papel de sempre) enquanto buscam por sobrevivência.

Qualquer acontecimento, por mais improvável que seja, tem a possibilidade de existir. Essa é uma ideia matemática explorada no teorema do macaco infinito, descrito em certo momento do filme. Ainda que a matemática seja uma linguagem precisa, trata-se de uma sábia metáfora sobre a imprevisibilidade da vida. Por mais que sejamos donos de nosso destino, uma hora ou outra podemos simplesmente explodir e não há como prever isso.

O brilhantismo de “Espontânea” está justamente nessa decisão de não precisar de uma resposta lógica. Aconteceu porque aconteceu, assim como é nossa vida. Talvez a adolescência seja um pouco isso, esse misto de empolgação e receio pelo incerto. O filme se encerra de forma gloriosa, ao som de Sufjan Stevens, em um discurso empolgante e inspirador sobre as incertezas de nossa insana, cruel e apaixonante jornada que quase certamente dará muito certo ou muito errado. Uma das duas. E não há teorema matemático que defina isso.

NOTA: 8

País de origem: EUA
Ano: 2020
Título original: Spontaneous
Disponível: Telecine Play
Duração: 97 minutos
Diretor: Brian Duffield
Roteiro: Brian Duffield
Elenco: Katherine Langford, Charlie Plummer, Piper Perabo

Crítica: A Rota Selvagem

Atalho para maturidade

O cinema sempre procura encontrar novas formas para falar sobre crescimento, sobre aquela fase complicada em que se deixa de ser adolescente e passa a encarar com mais seriedade os dilemas da vida. É o conhecido coming of age e “Rota Selvagem” vem para dar uma nova voz a este processo, seguindo um rumo nada óbvio para falar sobre um assunto comum. É um filme único, dono de uma beleza única.

Acompanhamos, então, a jornada de Charley (Charlie Plummer), um jovem que é forçado a crescer diante de inesperadas mudanças em sua vida. Após ver seu pai (Travis Fimmel) sendo gravemente ferido e ficar em coma em um hospital, o jovem decide, por não ter ninguém a quem possa pedir ajuda, buscar auxílio em um amigo recente, Del (Steve Buscemi), que cria e treina cavalos para corridas. Um desses cavalos é Lean On Pete – que dá nome ao título – que está fraco e pode ter seus dias contados. Nessa fragilidade e fim iminente do animal, Charley sente uma grande afinidade por ele, nascendo ali uma amizade e uma necessidade de proteção, de ambas as partes.

O que difere a obra é que ela está constantemente saindo do lugar comum, sempre seguindo um caminho que não suspeitávamos previamente. Quando o protagonista parece atingir sua zona de conforto, o roteiro o obriga a construir uma nova jornada. Desta maneira, “A Rota Selvagem” é dividido em alguns capítulos e, ainda que o cenário e as situações se alterem, mal percebemos essas transições tamanha a naturalidade com que apresenta cada fase. São vários personagens que vão entrando em cena, quase como atos com começo, meio e sem nunca apresentarem um fim, como um ciclo em movimento. O fascínio do filme está nesta trajetória costurada por etapas não planejadas, justamente como nossa vida é: imprevisível. O lado bom disso é que nunca sabemos o rumo que a história irá tomar e sempre somos surpreendidos por um novo início. O lado ruim é que os capítulos não possuem a mesma força, oscilando e nos fazendo perder o interesse em determinadas passagens. O elenco é bom e segura a qualidade, passando na tela nomes como Steve Buscemi, Chloë Sevigny e Steve Zahn.

O diretor Andrew Haigh, que já havia entregado outros bons trabalhos como “Weekend” e “45 Anos”, volta a oferecer uma obra singela, sensível e incrivelmente bem filmada. Suas sequências são belas e são enaltecidas pela fantástica fotografia. Claro que nada disso seria possível sem a potente performance de Charlie Plummer. É um papel que requer entrega e ele surpreende, ainda mais por ser tão jovem no cinema. É muito bom o que Plummer entrega, seus diálogos com Pete são delicados e enche a tela com honestidade. Sem uma explosão comum em filmes do gênero, conseguimos sentir o peso do mundo em suas costas apenas com suas expressões. “A Rota Selvagem” comove com suas sutilezas, com este poder de emocionar sem grandes esforços. Mais do que uma jornada de maturidade, temos aqui um road movie sincero e encantador, que revela com graciosidade essa busca por proteção, por abrigo, por não se sentir tão sozinho nesse mundo tão cheio de nada.

NOTA: 8

  • País de origem: França, EUA, Irlanda do Norte, Reino Unido
    Ano: 2017
    Duração: 121 minutos
    Título original: Lean on Pete
    Distribuidor: Diamond Films
    Diretor: Andrew Haigh
    Roteiro: Andrew Haigh
    Elenco: Charlie Plummer, Steve Buscemi, Chloë Sevigny, Travis Fimmel, Steve Zhan, Lewis Pullman