Cinema, tempo e memória
Tenho pensado muito sobre “Ainda Estou Aqui”. Não apenas pela força de sua história, mas pela experiência cinematográfica única que ele nos proporciona. De fato, não lembro qual foi a última vez que presenciei uma produção nacional repercutir desta forma. Foi comovente assistir a esse filme em uma sala cheia, e ao final, perceber o silêncio absoluto compartilhado por todos ali, imóveis, imersos naquele mesmo sentimento. Uma obra difícil de descrever porque ela nos faz sentir muito e porque ela nos atinge de uma forma da qual, definitivamente, não estávamos preparados.
Adaptação do livro de Marcelo Rubens Paiva, “Ainda Estou Aqui” narra um episódio íntimo e doloroso do autor, enquanto resgata um período sombrio da história do Brasil. O filme mergulha nas memórias de uma família que foi atravessada pela Ditadura Militar e a dor da ausência que tiveram que enfrentar com o misterioso desaparecimento do pai que, ao ser interrogado pelo exército, não mais retorna. O filme, então, traça um recorte poderoso dessa ferida histórica, explorando a perspectiva de quem perdeu alguém e teve que enfrentar os anos seguintes sem qualquer resposta.

No centro dessa história está Eunice, a esposa e mãe, cuja jornada é o verdadeiro coração do filme. O roteiro constroi sua trajetória de maneira brilhante, desde seus olhares desconfiados diante das invasões e repressões políticas que tomam conta do país, até a sua impressionante virada interna, quando precisa reunir forças para cuidar de seus filhos. A emoção de “Ainda Estou Aqui” reside, justamente, nessa garra de Eunice, que, em meio ao medo e à fragilidade, precisa criar um ambiente seguro para sua família. E ter uma atriz como Fernanda Torres no papel só enriquece ainda mais a experiência. Sua entrega é arrebatadora, nunca nos permitindo desviar os olhos de sua presença, nos levando a vivenciar, ao seu lado, cada emoção e cada conflito interior.
A obra acerta em cheio na ambientação, transportando-nos para os anos 70 com uma precisão impressionante. As cores, os figurinos, as músicas, objetos de cena – tudo respira a época. O fato de toda essa história nascer pelos olhos de Marcelo, o filho mais novo e do próprio diretor, Walter Salles, ter convivido naqueles espaços, cria uma atmosfera intimista, narrada com imenso afeto. A casa, longe de ser um simples cenário, é um personagem essencial. O filme nos insere na dinâmica familiar com tanta naturalidade que, ao caminhar pelos corredores da casa, acreditamos plenamente nas relações e na rotina daquela família. O elenco todo é muito bom e estão todos em sintonia, permitindo que tudo isso seja possível.
Cinema é memória. É o registro de um tempo que se foi. Vivenciar “Ainda Estou Aqui” é como folhear um álbum de fotografias antigas e ser transportado para o passado por um olhar afetuoso, impregnado de saudade. É também sentir esse vazio das lembranças que não foram possíveis de existir devido aos crimes deixados pela Ditadura. O ato do registro é vital para os personagens, como na emblemática cena de Eunice permitindo que seus filhos sorriam após o desaparecimento do pai, ou dos vídeos gravados pela filha mais velha. O que torna o final extremamente simbólico, de uma poesia triste, mas natural da vida. A memória acaba, mas a arte sempre estará aqui para nos lembrar. E precisamos lembrar.
“Ainda Estou Aqui” é mais um grandioso trabalho de Walter Salles. Ele entrega um recorte imensamente comovente e escrito com uma sensibilidade rara. Confesso que é bastante difícil descrever o que senti nos últimos minutos de filme. É como se a obra fosse preparando o terreno desde o início para nos dilacerar. No meu caso, fiquei despedaçado, perdi o ar, me fazendo chorar como não chorava há muito tempo. Me deixou em completo estado de catarse. Ao mesmo tempo em que senti felicidade de ver o cinema nacional ganhando um exemplar dessa qualidade. Uma produção que dá orgulho e que, ganhando Oscar ou não, será sempre digna de nossa admiração..
NOTA: 10

País de origem: Brasil
Ano: 2024
Duração: 136 minutos
Diretor: Walter Salles
Roteiro: Murilo Hauser, Heitor Lorega
Elenco: Fernanda Torres, Valentina Herszage, Bárbara Luz, Luiza Kosovski, Selton Mello, Fernanda Montenegro
