as nuances e contradições humanas
Desde as primeiras divulgações de Depois da Caçada, era evidente o quanto este novo trabalho de Luca Guadagnino se distanciava de seu estilo habitual, como sendo algo destoante em sua filmografia. Trata-se de um drama mais convencional em sua forma, mas longe de ser banal ou irrelevante. Eleva a discussão do abuso sexual quando coloca em cena personagens bem lapidados. Aborda o tema com coragem, especialmente por ousar ser ambíguo em uma era cada vez menos tolerante às contradições.
Os minutos iniciais da obra são cruciais para o desenrolar da trama. Em uma simples conversa entre os três personagens centrais, a narrativa desenha o que está subentendido nas relações. Sentimentos silenciados que vão da inveja ao desejo, da provocação infantil à obsessão. Nenhum deles é unidimensional, e o que o filme propõe em seguida é tanto um confronto entre os três quanto um embate interno de cada um, entre a imagem que projetam e aquilo que tentam ocultar em si mesmos.
Depois da Caçada apresenta um conflito instigante. Alma (Julia Roberts) é uma professora de uma conceituada universidade que se vê presa em um dilema ético e profissional quando seu amigo mais próximo (Andrew Garfield) é acusado de abuso sexual por uma aluna exemplar (Ayo Edebiri). Diante desta revelação, ela precisa tomar uma posição e escolher um lado de defesa. E o roteiro, com diálogos precisos e afiados, nos desafia a também ocupar o incômodo papel de juiz.
O roteiro, intencionalmente, nos priva do acontecimento em si. Como Alma, somos forçados a julgar com base apenas nos relatos dos personagens, sem acesso à verdade dos fatos. E esta dúvida que paira é inquietante. A passividade da protagonista reflete o comportamento de boa parte da sociedade diante de temas delicados. Alma, que se apresenta como defensora das mulheres em um mundo ainda dominado por homens, revela-se bastante conservadora quando sua voz poderia, enfim, fazer diferença. Ela prefere observar à distância, ciente da gravidade do caso, mas confortável em seu silêncio. O filme provoca ao transferir essa responsabilidade moral ao espectador, tocando em feridas que muitos preferem evitar. Sem apelar para soluções fáceis, a narrativa constrói personagens profundamente falhos, o que só amplia a complexidade do debate.
Depois da Caçada conta com excelentes atuações, principalmente de Julia Roberts e Andrew Garfield, que elevam a qualidade do texto. A direção de Guadagnino é bastante segura, com enquadramentos sempre muito conscientes sobre como quer revelar seus personagens. A trilha sonora, assinada por Atticus Ross e Trent Reznor, complementa perfeitamente essa atmosfera angustiante e tensa.
Não é um filme que buscará consenso. E nem pretende, afinal vem com muita lenha nessa fogueira. Depois da Caçada é maduro, provocativo e ousado ao tratar de um tema sensível sem abrir mão da complexidade. Reconhece que toda acusação carrega camadas profundas, nuances e contradições humanas que raramente se deixam reduzir a preto e branco.
NOTA: 8,5
País de origem: EUA
Ano: 2025
Título Original: After the Hunt
Duração: 139 minutos
Diretor: Luca Guadagnino
Roteiro: Nora Garrett
Elenco: Julia Roberts, Ayo Edebiri, Andrew Garfield, Michael Stuhlbarg, Chloë Sevigny
