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Crítica | 13 Sentimentos

dilemas da vida adulta com a plasticidade de instagram

Dez anos após o lançamento de “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho”, Daniel Ribeiro volta para debater outros dilemas do mundo gay. Mesmo dentro do mesmo universo, porém, ele usa do cinismo como resposta ao romantismo de seu filme anterior. É como se aquele adolescente encantado tivesse crescido, quebrado a cara e agora vive as desilusões da vida adulta. O diretor continua a construir um cinema que traz uma linguagem palatável e acessível, conseguindo dialogar com uma comunidade que quase nunca teve a oportunidade de se ver na tela, ainda mais em uma obra leve e esperançosa.

“13 Sentimentos” é aquele tipo de filme que tem o poder de gerar muita identificação. Além de abordar a fase do fim de um relacionamento, temos ainda um retrato bastante atual sobre se relacionar através de aplicativos e sobreviver na era de tantas novidades e estímulos. Nosso protagonista é João (Artur Volpi), um jovem cineasta, que parece lidar bem com o término de um longo namoro. Ele se joga na tentativa de conhecer pessoas e viver novas experiências, ao mesmo tempo em que precisa correr para escrever o roteiro de seu filme (e o que acaba sendo a grande chance de conhecer mais de si mesmo).

Claramente existe muito de Daniel Ribeiro aqui. É basicamente um filme sobre fazer um filme e ele brinca com essa situação, usando da metalinguagem para falar sobre os tantos conflitos de um homem gay na casa dos 30. Nem tudo o que está na tela é real, por vezes é imaginação, por vezes é parte de um roteiro sendo ensaiado. Ainda que exista uma certa complexidade nesta premissa, a direção é extremamente quadrada, não conseguindo expressar na imagem o dinamismo e velocidade que o texto propõe. Enquanto vemos o personagem enfrentando um turbilhão de sensações e experiências, a direção perde a oportunidade de entregar uma obra que acompanhe esses altos e baixos, indo sempre na direção contrária ao que o texto sugere.

É desta forma que a narrativa encontra conforto na linearidade. A consequência disso é que não conseguimos sentir essas oscilações de emoções, não sofremos junto e quando tudo se resolve, pouco nos sentimos recompensados. Porque tudo é no mesmo tom, sem contrapontos. O filme, ainda, se mostra incapaz de expressar tesão e sensualidade ao falar sobre sexo. É tudo muito convencional e higienizado, com planos fechados, cores intagramáveis e aquele som limpo sem nenhum tipo de ruído de São Paulo, quase como uma longa propaganda de TV.

Gosto quando Daniel Ribeiro traz em seu roteiro uma linguagem acessível, mas é decepcionante como ele não aposta na inteligência de seu público, construindo seu filme como se fossemos assistir comendo ou lavando a louça. Tudo é muito mastigado, precisando até mesmo explicar suas metáforas (e como ele insiste naquele cubo mágico!). Todos os personagens que cercam o João não possuem vida própria e estão ali apenas para servir sua existência, dando suporte sempre que ele precisa. Eles são autoconscientes e mentalmente bem resolvidos, chegando sempre com uma resposta pronta sobre qualquer dor ou dilema que o protagonista enfrente. É então que o texto nos impede de fazer muitas reflexões, porque elas já são definidas na tela e não sobra muito para nós.

João é um personagem que vai se tornando cada vez menos interessante aos nossos olhos. Ele é a típica gay básica do centro de São Paulo, com chão de taco e plantas, o que torna muito difícil comprar seus dramas. Ele é mimado, egocêntrico e narcisista e o roteiro em nenhum momento parece encarar essas características como algo ruim. “13 Sentimentos” lida com questões adultas, mas não necessariamente se mostra um trabalho mais maduro de Daniel Ribeiro, ainda que ele acredite nisso porque agora ele filma cenas de sexo.

Dos tantos discursos feitos na obra, o que mais me pegou foi a questão da idealização. Nesta nossa procura por encontrar alguém, idealizamos o futuro rapidamente com um estranho, imaginando uma vida juntos e isso sempre gera frustração. Idealizamos também nosso passado, quando acreditamos que aquele relacionamento antigo foi o melhor que tivemos, quando na verdade não foi. Apenas bloqueamos o que foi ruim e o que nos levou para o fim. E tudo isso acaba sendo uma artimanha do nosso subconsciente para nos sabotar a seguir em frente. “13 Sentimentos” tem suas boas intenções, no fim das contas. É leve e esperançoso como precisamos. É, também, simplório demais e isso, posso dizer, não precisamos tanto.

NOTA: 6,5

País de origem: Brasil
Ano: 2024
Duração: 100 minutos
Diretor: Daniel Ribeiro
Roteiro: Daniel Ribeiro
Elenco: Artur Volpi, Julianna Gerais, Marcos Oli, Michel Joelsas, Helena Albergaria

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