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Crítica | Guerra Civil

tornando-se história

A guerra fictícia filmada por Alex Garland poderia acontecer em qualquer lugar e em qualquer tempo próximo. Uma obra que vem com uma noção de conflito político e civil muito grande, expondo tudo de maneira extremamente crua e realista. Nos faz adentrar às cenas e sentir esse peso da urgência, da intensidade e do medo constante. É tenso e assustadoramente possível. Assustadoramente atual. Vai dividir opiniões e tudo o que é audacioso tem esse poder. Sou do time que gostou e gostou muito. Inclusive, sinto que ele cresce em mim a cada vez que penso nele.

Nada é convencional em “Guerra Civil” e isso tornou minha experiência ainda mais interessante. Porque jamais é possível saber o caminho que vai trilhar. Você nunca saberá do que se trata o filme até assistí-lo e cada um terá um sentimento diferente. Algo específico nele que te toque. Posso dizer que não é sobre guerra e isso talvez possa frustrar uma parte do público que esperava uma abordagem mais objetiva sobre o tema. O texto está muito mais interessado na presença de profissionais que geram informação durante um conflito social. Existe um discurso muito forte sobre a importância da imprensa na construção da democracia e como a história só existe porque alguém esteve lá para contar (e porque um dia foi publicada). Vemos na tela um recorte de um momento crucial na política norte-americana e a coragem de fotojornalistas em registrar esse ponto de ruptura.

Sabemos pouco sobre o conflito que ocorre ao fundo através de pequenas pistas que vão sendo deixadas pelo caminho. O que é possível saber é que temos um país polarizado politicamente em uma guerra civil violenta. Existe uma alusão ao governo Trump e essa sociedade que se divide entre aqueles que se opõem ao patriotismo radical e ao discurso do “make america great again” que não vê imigração com bons olhos. A cena em que o ator Jesse Plemons participa é o momento mais tenso dessa caminhada e sintetiza bem essas ideias. Simplesmente impossível respirar ali. Porque é o retrato preciso do quão perigoso é o extremismo.

Quando Alex Garland nos priva de informações, eles nos deixa de fora e nos permite ser imparciais. E é altamente necessário para a narrativa que sejamos imparciais. Quando compreendemos a posição de cada lado dentro de uma guerra, automaticamente, vemos lógica. O que o roteirista propõe é justamente nos tirar essa lógica. É nos deixar sem chão. A isenção, no caso, não é por falta de coragem, mas pela ousadia de nos provocar. E principalmente pela eficiência de nos colocar na pele dos jornalistas que, necessariamente, não podem ter um lado a defender.

Neste cenário caótico, então, acompanhamos três profissionais da imprensa cruzando os EUA até chegar em Washington e o surgimento inesperado de uma jovem fotógrafa no caminho deles. A partir deste ponto, o longa se aproxima de um road movie. E como um bom filme de estrada, há uma trajetória sutil de autoconhecimento e amadurecimento. Nesta narrativa, existe uma dualidade fascinante entre as duas protagonistas. Enquanto Lee (Kirsten Dunst) se mostra cada vez mais cansada, mais desesperançosa diante de tudo o que já viu, Jessie (Cailee Spaeny) ganha o gás necessário para se manter mais firme. Ela tem a sede pela profissão, por tudo aquilo que ainda pode ser mudado. No meio disso ainda temos Joel, vivido por Wagner Moura. É uma atuação um pouco mais caricata ali, mas revela esse cara que tem a adrenalina como combustível.

Nas mãos de outro diretor, talvez ele tentasse tornar tudo mais glorioso do que é ou pior, o que muitos já fazem, tentar encontrar beleza nas imagens, como se sentisse prazer pela violência. Mesmo falando sobre fotografia e o poder do registro, Garland é inteligente e esperto o bastante para não cair nessa armadilha. Ele trata seus assuntos com importância sem ser pretensioso e fala sobre ser frio diante da guerra sem necessariamente ser frio na forma de guiar seu filme. Existe uma obra que se mantém no acelerador e, muitas vezes, nos deixa com o coração na mão. É brilhante a forma como ele congela algumas cenas, como se víssemos em tempo real as fotos tiradas. Esse recurso visual deixa tudo ainda mais impactante, brutal e, de certa forma, torna a experiência ainda mais imersiva. Vale, ainda, citar o impressionante trabalho de som que nos coloca inteiramente para dentro da cena.

O primeiro encontro entre Lee e Jessie é bastante emblemático. É um momento em que Alex Garland deixa muito clara suas intenções. Existe algo de surpreendentemente poético nesta relação entre as personagens, onde uma cena lá no início conversa diretamente com a última, fechando um ciclo poderoso. No momento em que Jessie conhece Lee, ela tira uma foto dela no meio de um confronto. Para o olhar da jovem, o cenário e contexto não importava, mas sim a vida daquela mulher que tanto admirava, ao centro. A poesia vem quando compreendemos a importância de Jessie ter cruzado o caminho daqueles jornalistas. Ela é a visão de fora, aquela que consegue provar. Lee deixa de ser o instrumento e torna-se, finalmente, o foco. Torna-se uma vida que existiu. Que esteve ali e foi registrada. Torna-se história.

“Guerra Civil” é um filme que pode ter muitas interpretações. É uma obra mais profunda e mais complexa do que parece. Vejo uma série de detalhes ao longo da jornada que enriquecem a trama, que a faz ser muito mais do que um simples relato de guerra. Alex Garland entrega um produto maduro, extremamente corajoso, pungente ao criticar o norte-americano, a xenofobia e o quão sem lógica pode ser um combate. A última cena é tão poderosa que me deixou sem ar. Fiquei paralisado, completamente tenso. Ao mesmo tempo, fiquei ali reflexivo sobre o quão raro são filmes como este. Então me encontrei maravilhado e satisfeito por tê-lo testemunhado em uma tela de cinema. A A24 queria fazer sua superprodução e definitivamente entregou nas mãos certas.

NOTA: 9,5

País de origem: EUA
Título original: Civil War
Ano: 2024
Duração: 109 minutos
Diretor: Alex Garland
Roteiro: Alex Garland
Elenco: Kirsten Dunst, Cailee Spaeny, Wagner Moura, Stephen Henderson, Jesse Plemons

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