Crítica: Cherry – Inocência Perdida

Nico Walker publicou em 2018 seu romance semi-autobiográfico, revelando sua jornada no exército norte-americano e como ele teve que cumprir, anos depois, pena na prisão por assaltar bancos. Essa é a história de “Cherry”, que fez os olhos dos diretores Joe e Anthony Russo brilharem ao acharem o cenário perfeito para mostrar seus talentos fora do Universo da Marvel. É, ainda assim, um produto megalomaníaco, barulhento e bastante ambicioso.

O protagonista, vivido com intensidade por Tom Holland, tem 23 anos e pouco tem expectativas sobre seu futuro e decide se alistar ao exército. O filme, que é dividido em seis capítulos, nos revela essas tantas fases de amadurecimento que ele precisa encarar, desde seu relacionamento com a jovem Emily (Ciara Bravo) até seu difícil retorno, tendo que lidar com suas tantas crises de estresse pós-traumático, ansiedade e depressão. Nesta necessidade de sobreviver mas não se encaixar, ele se torna um dependente químico.

O problema desses “capítulos” da obra é que essas histórias são pouco conectadas entre si. Há muitas rupturas e nenhum desenvolvimento plausível. Ainda que os diretores tragam agilidade e estilo às cenas, sua primeira hora soa como uma longa introdução para o que o filme realmente gostaria de dizer, tornando o caminho um tanto quanto desgastante. Na segunda metade, o longa se encontra, mas acaba, infelizmente, entrando numa espiral narrativa que pouco evolui, como as sequências de roubos e o casal viciado em drogas. Nada disso é muito verossímil e tudo se revela como uma representação de algo que ninguém ali chegou a ver de perto. É tudo muito agressivo e de pouco sentimento, pouca verdade.

A quebra da quarta parede é um mero artifício, que surge apenas como mais um desafio para o ator e a direção, mas que pouco soma na narrativa. Ainda assim, o texto é dinâmico e, ao menos, consegue nos trazer para dentro das ações. Traz um olhar bastante crítico sobre o exército e esta dificuldade de readequação desses tantos jovens. “Cherry” é, acima de qualquer coisa, um filme pretensioso, que tem como grande intenção mostrar uma nova face de Tom Holland e dos Irmãos Russo. As cenas são milimetricamente estilosas e, no fim, é só o que realmente importa para os diretores, que encerram esta insana jornada de forma desconfortavelmente moralista.

NOTA: 6,5

  • País de origem: EUA
    Ano: 2021
    Duração: 141 minutos
    Diretor: Anthony e Joe Russo
    Roteiro: Jessica Goldberg
    Elenco: Tom Holland, Ciara Bravo, Forrest Goodluck, Jack Raynor, Damon Wayans Jr.

Crítica: O Diabo de Cada Dia

Delírios da fé 

Grande acerto da Netflix, “O Diabo de Cada Dia” é uma adaptação do livro de Donald Ray Pollock que reúne um elenco de atores promissores. A obra narra uma série de histórias e personagens que são conectadas pela violência em uma região esquecida dos Estados Unidos. São indivíduos atormentados por um período entre Guerras, que encontram na fé uma passagem para a salvação. É bem interessante como o roteiro vai costurando essas tantas tramas, que atravessam anos e são cruzadas por pura coincidência ou vontade divina, como o próprio narrador nos alerta. Essa voz onisciente e onipresente é o que nos guia. É ela quem nos permite adentrar na mente conturbada de cada um e na melancolia existente nessas ligações. 

O diretor e roteirista Antonio Campos surpreende ao comandar essa jornada. Ele, que veio de obras menores como “Christine”, volta a investigar os efeitos de se viver em uma sociedade que normalizou a violência e crueldade. Campos acerta na construção da atmosfera, nos fazendo viajar ao tempo e a acreditar naquelas histórias e sentimentos. Há algo de amedrontador que permeia por todas as narrativas. A desumanidade ganha força nos lugares comuns, justamente onde parecia habitar bondade. O longa rapidamente nos faz traçar esse paralelo com a realidade e como a religião e a fé acabam sendo usadas como desculpa para tanta atrocidade. Esse fanatismo religioso é aterrorizante porque ele vem como escudo e porque ele defende o mal como um simples ato de delírio. 

Neste sentido, é interessante a história de vingança de Arvin Russell (Tom Holland) porque ele não combate uma pessoa específica e sim o peso que carrega do passado e sua relação com esse Deus impiedoso. Essa santidade que corroeu sua família e tudo aquilo que ele amava. Essa adoração que nunca trouxe respostas ou que tenha justificado tantos sacrifícios. Trouxe apenas o vazio, a dor, a solidão de ter que viver com tanta perda. Arvin é o que conecta essas tantas histórias. Desde seu pai, um soldado perturbado pela Guerra (Bill Skarsgård) até os inúmeros personagens que vão cruzando seu caminho por puro acaso (ou porque Deus quis assim). A arma, uma Luger alemã, que dizem ter estourado os miolos de Hitler, é outro item que transita por esses tantos ciclos e o objeto amaldiçoado que carrega essas tantas memórias. Ainda que o roteiro acerte na composição de todo este extenso universo, sinto uma leve fragilidade na jornada do xerife, interpretado por Sebastian Stan. Ele era um item importante na história mas jamais fica claro sua real relevância. Sinto que não foi bem explorado essa forte conexão que havia entre ele e Arvin e como ambos eram essas linhas soltas que dariam o último nó ao fim. Como todo filme que se utiliza de narração em off, este infelizmente nem sempre escapa da armadilha de narrar o que, às vezes, é explícito na imagem. Mas no geral funciona e não chega a estragar a experiência. 

Trata-se de um roteiro poderoso, brilhantemente bem escrito. Flui bem por todas as histórias sem perder a unidade, sem oscilar, apesar da longa duração. Mais do que ter em mãos grandes personagens, a obra acerta na escalação e condução dos atores. Independente do tempo de cena de cada um, todos estão bem. Holland nos faz esquecer seu Homem-Aranha e isso é ótimo, visto que nos últimos anos ignoramos a criança promissora que ele era. Jason Clarke e Sebastian Stan são tão bons que criamos um asco enorme por vê-los na tela. O mesmo sentimos por Robert Pattinson que, no entanto, ainda que seja esforçado, não consegue fugir da caricatura. As atrizes Eliza Scanlen, Mia Wasikowska, Riley Keough e Haley Bennett estão ótimas também, mesmo que menores na trama. Destaco Harry Melling pela força e garra ao qual entrega à seu personagem. 

Algumas pessoas nascem apenas para serem enterradas é uma verdade dolorosa. “O Diabo de Cada Dia” traz uma visão pessimista sobre como a nossa jornada e a maldade coexistem. Nosso destino pode alcançá-la a qualquer instante, quando menos esperamos, apenas porque tem que ser assim. A obra, no meio de suas tantas tragédias, faz um relato obscuro sobre a base de nossa atual sociedade e os reflexos que temos na política. Pessoas ordinárias e lunáticas que não tem noção do peso de suas ações e seus crimes bárbaros hoje estão no poder e estão validando o que é certo.

NOTA: 8,5

  • País de origem: EUA
    Ano: 2020
    Duração: 138 minutos
    Título original: The Devil All The Time
    Distribuidor: Netflix
    Diretor: Antonio Campos
    Roteiro: Antonio Campos, Paulo Campos
    Elenco: Tom Holland, Robert Pattinson, Sebastian Stan, Bill Skarsgård, Riley Keough, Jason Clarke, Harry Melling, Eliza Scanlen, Haley Bennett, Mia Wasikowska