Crítica: Oitava Série

Por trás do filtro

É curioso o que há por trás de “Eighth Grade”. O diretor Bo Burnham – hoje, com apenas 30 anos – começou sua carreira como youtuber, onde pôde expressar seus talentos tanto na música como na comédia. Eis que ele resolveu se arriscar no cinema para contar a história de uma garota desajustada que, enquanto publica seus vídeos na internet, precisa lidar com as dificuldades em conviver com tudo aquilo que é real. A grande surpresa é que essa sua empreitada deu muito certo, entregando um texto muito sensível, profundo e assustadoramente atual. Ele acaba realizando um retrato muito honesto sobre esta transição da infância para adolescência, nos fazendo identificar e reconhecer nossas próprias inseguranças e receios na protagonista.

Na escola, Kayla (Elsie Fisher) é invisível. Suas tentativas de se enturmar são sempre frustrantes e estar cercada pelos jovens de sua idade parece um interminável pesadelo. Em seu quarto, isolada do mundo, é onde experimenta a liberdade, é onde se sente bem sendo ela mesma. Com a câmera ligada, filtro na cara (escondendo as marcas de suas espinhas), Kayla grava uma série de vídeos tentando ensinar aqueles com a mesma idade a enfrentarem os obstáculos de se estar na oitava série e serem felizes sem medo dos julgamentos. É muito interessante como o filme vai mesclando os depoimentos da protagonista em seus vídeos, com a maneira que ela age diante dos outros. Há um contraste enorme, porque às vezes nem Kayla é capaz de ouvir os próprios conselhos. A realidade é dura e ouvir a própria voz nem sem sempre é um caminho possível.

É assustadoramente realista o cenário de “Eighth Grade”, o que nos permite ativar nossas lembranças mais desconcertantes e criar uma empatia muito forte por Kayla e essa difícil jornada que precisa enfrentar diariamente, dentro de um ambiente tão hostil e nada receptivo. Que felicidade, então, poder ver uma atriz tão jovem e tão sincera em cada atitude que expressa na tela. Elsie Fischer é um grande achado e consegue transmitir toda esta insegurança de ter sua idade, entregando uma performance fantástica e hipnotizante. Seu jeito tímido de agir na escola e a forma atrapalhada com que fala diante do susto de ter que conversar com outra pessoa. Ela é um reflexo preciso de muitas garotas e garotos que são engolidos pela própria solidão. Até mesmo a arrogância com que trata seu pai e o silêncio que se instaura em seu lar enquanto ela não larga o celular, acaba revelando um olhar melancólico sobre como a tecnologia tem afetado as relações familiares. Aliás, a maneira como as redes sociais entram neste contexto é interessante também. Não só permite que a jovem construa uma versão mais confiante de si mesma, como cria esta falsa sensação de que para ter novos amigos é preciso interagir em seus perfis online.

A obra acaba, infelizmente, nos distanciando algumas vezes quando opta por soluções não muito críveis, como a melodramática cena em que Kayla se abre com o pai. No entanto, são instantes isolados que não diminuem o impacto que o filme causa em nós. Acredito que o próprio diretor não tivesse noção do quanto ele alcançaria com “Eighth Grade”, logo que acaba por construir um estudo fascinante e relevante dos dias de hoje. Diz muito sobre o que fomos e sobre o que os jovens atualmente são. Bo Burnham escreve com muita sensibilidade e coragem essa passagem, entregando um produto cruel, humano e dolorosamente honesto em cada sentimento e receio exposto. Não é exagero afirmar que temos aqui um dos retratos mais fieis sobre a adolescência, triste mas imensamente doce e terno. Ao fim, aquela pequena garota acaba nos deixando uma bela e simples lição mas que esquecemos com facilidade: independente da merda que esteja enfrentando agora, vai passar! Uma hora passa, tudo passa.

NOTA: 8,5

  • País de origem: EUA
    Ano: 2018
    Duração: 93 minutos
    Título original: Eighth Grade
    Distribuidor: –
    Diretor: Bo Burnham
    Roteiro: Bo Burnham
    Elenco: Elsie Fisher, Josh Hamilton