Crítica: Fuja

Suspense dinâmico com história rasa

Retorno do jovem cineasta Aneesh Chaganty, depois do excelente “Buscando…”, temos aqui um suspense bastante conciso, que prende a atenção durante seus rápidos 90 minutos. Esse ritmo acelerado pode trazer uma certa empolgação, mas definitivamente, enfraquece sua ideia, pobremente desenvolvida.

Ainda que não seja, oficialmente, inspirado em nenhum caso real, a trama rapidamente faz lembrar da assombrosa história de Gypsy Rose, a filha refém da própria mãe que a fez acreditar ser doente a vida toda e que foi encenada, recentemente, na fantástica minissérie “The Act”. É muito difícil analisar “Run” sem fazer essa ligação, ainda mais quando o roteiro traz diversas similaridades. O início das desconfianças, o roubo dos doces, o uso escondido da Internet e a sequência no cinema de rua. São inúmeras situações já narradas em um produto muito fresco em nossa memória, o que torna suas criações bastante previsíveis, prejudicando a construção do suspense, que já vem entregue em seus primeiros minutos.

O grande erro de “Fuja” é já começar, pela pressa, desconstruindo um universo que não foi estabelecido previamente. A trama começa com um clima de desconfiança entre mãe e filha sem antes sabermos (e sentirmos) a importância dessa conexão. É frágil esse cenário que cria quando não há indícios da vida que elas levavam, principalmente porque o roteiro é extremamente raso ao desenhar essas duas personagens e essa vida de isolamento e sacrifícios que, supostamente, enfrentaram por 17 anos. Não há nada na personalidade delas que seja reflexo disso.

O suspense pode ser bem armado pelo diretor, mas o texto enfraquece a experiência como um todo, tendo escolhas absurdamente tolas, como quando a mãe prende a filha no escritório com todos os segredos “guardados” ali bem à sua frente para serem revelados. Ao menos conta com boas atuações das duas atrizes, Kiera Allen e Sarah Paulson e acerta ao apresentar uma grande última cena.

NOTA: 6,5

  • País de origem: EUA
    Ano: 2020
    Título original: Run
    Disponível: Netflix
    Duração: 90 minutos
    Diretor: Aneesh Chaganty
    Roteiro: Aneesh Chaganty
    Elenco: Kiera Allen, Sarah Paulson

Crítica: Vidro

Tão frágil quanto

M.Night Shyamalan é, sem dúvidas, um cineasta imprevisível e foi desta forma que ele criou uma trilogia nada convencional. Durante anos houve boatos sobre uma possível sequência de um de seus mais elogiados trabalhos, “Corpo Fechado”, lançado em 2000. “Fragmentado”, seu último filme, foi um grande sucesso e não só fez os estúdios voltarem a ter confiança no trabalho dele como o permitiu, enfim, fazer a continuação que ele sempre sonhou. “Vidro” vem para fechar essa saga não anunciada, no entanto, o que poderia ser um evento épico acaba sendo um verdadeiro desastre.

Como sequência de dois filmes bem distintos, Shyamalan tinha grandes dificuldades à sua frente. Em alguns aspectos, ele consegue fundir muito bem esses dois universos, respeitando, curiosamente, a fotografia e atmosfera de cada um. A maneira, também, como se utiliza das cores para distinguir cada personagem é um jogo que funciona. Desta forma, é no visual que “Vidro” tem um de seus maiores acertos. A boa direção de Shyamalan também ajuda, entregando sequências nada óbvias e fugindo do que o cinema costuma entregar quando o assunto é herói. É uma roupagem nova e o diretor acerta ao comandar tudo isso. O grande problema está em seu roteiro, que não só prova o pouco preparo dele para esse evento como não justifica a criação dessa terceira parte.

Ao início, a trama revela como andam as vidas de David Dunn (Bruce Willis) e Kevin Crumb (James McAvoy) depois dos acontecimentos já mostrados nos outros filmes. Há um rápido confronto entre os dois personagens, os unindo e os colocando para dentro de um hospital psiquiátrico, onde entra em ação a doutora Ellie (Sarah Paulson), uma profissional que trata desses casos específicos em que indivíduos acreditam ser heróis. Naquele lugar também se encontra outro paciente, Elijah Price (Samuel L.Jackson), também conhecido como Mr.Glass, que tem um antigo plano ainda em ação e onde Kevin e David são as peças principais para que dê certo.

“Vidro” até tem um propósito, mas seu roteiro nunca sabe como chegar lá. É tudo estranhamente mal elaborado e que só prova a irresponsabilidade de Shyamalan como autor, descaracterizando sua própria criação em prol de um fan service barato. Seu confuso texto força demais para tentar juntar seus três personagens e em nenhum momento ele prova que isso era uma boa ideia. Simplesmente não há desenvolvimento em sua obra, girando em torno de situações repetidas e quando finalmente parece sair do lugar, o resultado é frustrante. Durante todo o filme, a trama nos prepara para um grande evento que, infelizmente, nunca se alcança. Seu ápice é vergonhoso, pequeno e simplista demais para o que prometia. Existe, ainda, aquela velha necessidade do cineasta em se provar o rei das reviravoltas, encontrando saídas pouco criativas e que não causam surpresa alguma, apenas mais descontentamento. Shyamalan subestima seu público com soluções pouco críveis e difíceis de serem engolidas.

Diante de tantos erros, James McAvoy surge como um grande alívio. Sua performance ainda causa impacto e continua prazeroso vê-lo interpretar tantas personalidades. Bruce Willis completamente apagado e apático, enquanto que Samuel L.Jackson e Sarah Paulon apertam o piloto automático pra conseguir dar alguma vida aos sofríveis diálogos que precisam pronunciar. M.Night Shyamalan tem uma carreira oscilante e acho que ele estava tão certo de si quando resolveu levar essa ideia para frente que optou por nem revisar seu pobre material. O resultado é um filme vazio, que tem a pretensão de ser épico – a fantástica trilha sonora ajuda bastante inclusive – mas não passa de um estrondoso fracasso.

NOTA: 5

  • País de origem: EUA
    Ano: 2018
    Duração: 129 minutos
    Título original: Glass
    Distribuidor: Disney / Buena Vista
    Diretor: M.Night Shyamalan
    Roteiro: M.Night Shyamalan
    Elenco: James McAvoy, Bruce Willis, Sarah Paulson, Anya Taylor-Joy, Samuel L.Jackson, Luke Kirby, Spencer Treat Clark