Os 15 melhores atores de 2020

Finalizando as listas de melhores atuações do ano, venho agora para revelar os meus 15 atores favoritos de 2020. Confesso que foi uma lista difícil de fechar porque tivemos realmente grandes performances durante o ano. Personagens interessantes, desafiadores e diversos nomes que merecem destaque. Lembrando que as interpretações elegíveis eram aquelas presentes em filmes lançados no Brasil entre janeiro e dezembro de 2020.

Espero que gostem dos selecionados e aproveito, também, para deixar os títulos como dicas para assistir, pois todos aqui valem a pena a descoberta.

15. Ben Affleck
(O Caminho de Volta)

Sinceramente não sei qual foi a última vez que Ben Affleck entregou uma boa atuação e por isso foi tão bom vê-lo aqui, renovado e completamente entregue ao personagem. É forte e poderoso essa conexão que ele tem com o treinador e ex-atleta Jack, neste homem em depressão, que não tem controle sobre a bebida. Há muito do ator ali em cena, logo, ele oferece aqui o momento mais sincero de sua carreira.

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14. Jorge Garcia
(Ninguém Sabe Que Estou Aqui)

Atuação contida de Jorge Garcia, que ao longo de sua carreira ficou marcado por seu personagem na série “Lost”. Aqui ele ganha, finalmente, um espaço para explorar seu grande talento. Memo é um personagem introspectivo, recluso e dono de uma voz poderosa. Garcia traz verdade em cena e encanta.

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13. Paul Walter Hauser
(O Caso Richard Jewell)

Richard Jewell é um personagem interessantíssimo, que nos causa dúvidas, nos faz refletir sobre sua índole a cada instante e nos deixa intrigados por toda sua jornada. Paul Walter Hauser, que tem trilhado uma carreira como coadjuvante cômico, surpreende como protagonista e revela uma faceta nova como ator.

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12. Kelvin Harrison Jr.
(Luce)

É intrigante como um ator tão jovem é capaz de construir na tela um personagem tão complexo. Ainda que nunca fique realmente claro sobre quem é “Luce”, é brilhante o trabalho de Kelvin Harrison Jr.. Ele se mantém como uma incógnita, podendo ser a vítima de perseguição ou um sociopata em ascensão. Um trabalho difícil que ele, mesmo com pouca experiência, domina.

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11. George MacKay
(A Verdadeira História de Ned Kelly)

George MacKay é um ator que tem crescido bastante e tem tudo para ser um profissional prestigiado, no caminho certo ele está e é um nome para ficarmos de olho. Além de surpreender como protagonista de “1917”, ele também brilha aqui com outro protagonista extremamente diferente e poderoso, como Ned Kelly. A evolução do personagem é um tanto quanto confusa pelo bagunçado roteiro, mas felizmente temos um ator competente que dribla essa falta de informação com seu talento e nos mantém atentos por sua poderosa performance.

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10. Antonio de la Torre
(A Trincheira Infinita)

Na pele de Higinio, Antonio de la Torre entrega uma atuação formidável. A história do homem que passou mais de três décadas escondido em um porão, fugindo de um regime autoritário que comandava a Espanha. É um registro assustador, comovente e o ator transmite todo o desespero e agonia de se viver desta forma, recluso, sem vida.

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9. Sope Dirisu
(O Que Ficou Para Trás)

Em “O Que Ficou Para Trás” acompanhamos um casal de refugiados iniciando uma vida na Inglaterra. É um conto de terror que ganha força pela entrega dos dois atores. Sope Dirisu mergulha neste mar de desespero e incertezas, revelando uma atuação potente e nos levando ao inferno ao seu lado.

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8. Gary Oldman
(Mank)

Gary Oldman é aquele famoso camaleão, que sempre vai trazer algo novo para um personagem e se transformar na tela. Na pele do roteirista Herman J. Mankiewicz, o ator traz algo bem mais contido do que aquele que venceu o Oscar (em O Destino de Uma Nação) e ainda assim, melhor. É um papel mais limpo, mais sincero, provando, mais uma vez, ser um dos maiores atores ainda em atividade.

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7. Chadwick Boseman
(A Voz Suprema do Blues)

É um tanto quanto doloroso vir aqui e elogiar Chadwick Boseman, dizer sobre o tamanho do talento dele e o quanto ele se doa ao papel. Falar sobre o ator é lembrar “do que poderia ter sido”. “A Voz Suprema do Blues” carrega esse peso de ser o último trabalho deste grande ser humano. É um registro primoroso porque ele deixa marcado sua real potência. Existe entrega, carisma e existe honestidade.

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6. August Diehl
(Uma Vida Oculta)

Não conhecia o trabalho deste ator alemão e fiquei imensamente surpreso por sua presença no drama “Uma Vida Oculta”. Trata-se de um papel forte e ele domina cada instante. Como um soldado desertor na Segunda Guerra Mundial, ele emociona e nos carrega a uma jornada de dor, solidão e medo. Grande ator, espero poder ver mais dele.

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5. Mark Ruffalo
(O Preço da Verdade – Dark Waters)

Bela transformação de Mark Ruffalo neste drama de investigação como o advogado Rob Bilott, que arrisca sua carreira para enfrentar uma das maiores corporações do mundo. Existe garra em sua performance, aquele senso de justiça e cansaço de alguém que por anos esteve preso no caso. Mais um belo personagem em sua bela carreira.

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4. Hugh Jackman
(Má Educação)

Hugh Jackman é um sujeito interessante. Parece não haver limites para sua atuação, não há algo que ele não faça. Na pele de um superintendente de uma escola que acaba se envolvendo em um perigoso caso de corrupção, o ator revela uma faceta nova, que intriga, nos envolve. A cada minuto de produção, descobrimos algo que muda nossa percepção sobre o personagem e o ator tem este poder de se transformar sob os nossos olhos.

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3. Adam Sandler
(Jóias Brutas)

2020 foi um ano estranho e o começo dele já foi um alerta de que algo de errado não estava certo. Adam Sandler nos entregou uma boa atuação. E não foi só uma transformação de alguém acostumado na comédia e foi para o drama. Como o endividado e inquietante Howard, Adam foi além, muito além do que poderíamos imaginar dele. É, definitivamente, o melhor momento de sua carreira. A comédia ainda está lá, mas ele ainda assim se renova, revela algo que em anos de trabalho não havia mostrado. É brilhante, é poderoso.

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2. Robert Pattinson
(O Farol)

Robert Pattinson tem uma das trajetórias mais interessantes no cinema recente. O jovem ator teve que se virar do avesso para provar ser capaz. Se envolveu em projetos independentes e de grande ousadia e hoje se mostra um dos atores mais promissores de sua geração. Em “O Farol” ele entrega o seu melhor até aqui. Não sou muito fã do filme, mas sua atuação eleva a produção a outro nível.

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1. Riz Ahmed
(O Som do Silêncio)

Minha atuação favorita de 2020. Riz Ahmed me levou para uma outra dimensão. Foi além de uma simples interpretação. É muito poderoso e forte o que o ator realizou em “O Som do Silêncio”, que me deixou hipnotizado, emocionado e completamente imerso ao universo proposto pela produção. Ruben é um personagem grande, que precisa atravessar uma maré de incertezas e medos. Que precisa aceitar uma realidade da qual ele não teve preparo. O baterista que perde a audição é uma bela jornada de auto aceitação, de adaptação. Riz Ahmed personifica esse estado de tensão, de ansiedade, de dor, de querer gritar e não poder se ouvir. É lindo o que ele fez no filme e nada neste ano me marcou tanto quanto o que ele fez aqui.

Crítica: O Som do Silêncio

O som que vem de dentro

Primeiro longa-metragem de ficção dirigido por Darius Marder, que aqui também reprisa sua parceria com Derek Cianfrance (O Lugar Onde Tudo Termina) como roteirista. Belíssima revelação, ele entrega um filme poderoso, íntimo, milagroso até, eu diria. Seu cinema transcende e alcança instantes de uma comoção indescritível.

“Sound of Metal” se inicia com o som exacerbado de um show de rock. Duas almas ali vibram em cima de um palco, entregando toda a fúria e paixão que guardam dentro de si. Ruben Stone (Riz Ahmed) é o baterista e Lou (Olivia Cooke, ótima) é sua parceira na vida e quem entrega a voz na turnê que estão fazendo. Quase como dois nômades rodeando o mundo e distante de todos. Tudo muda quando Ruben começa a perder sua audição e lhe é recomendado se afastar de sons altos para que pudesse salvar o pouco que ainda ouve. Completamente sem direção, o baterista acaba aceitando aquilo que parecia sua única saída, adentrar em um grupo de apoio para pessoas surdas, mergulhando em uma maré de incertezas e angústias, atormentado pelo silêncio que parece arruinar seu futuro.

Uma obra tão inquietante quanto seu protagonista. Quando parece se acomodar, salta em uma nova direção. Seus momentos iniciais são poderosos e logo nos afundam juntamente com Ruben e esta iminente perda de todo seu sustento e razão de viver. É assim que a presença de Riz Ahmed se revela tão potente. Ele demonstra com precisão essa fragilidade e ansiedade, esse medo diante do abismo que sua vida alcança. Quando o som que rodeava toda sua existência se extingue, ele precisa encarar uma nova e assombrosa realidade. O protagonista, porém, sempre está diante de um grande dilema e tem dificuldade em ver as coisas com muita clareza, em se aceitar. Diante de um ambiente que simboliza sua salvação ali, ele se depara com inúmeras pessoas que enfrentam a ausência de audição, mesmo que Ruben nunca se veja como um igual. É extremamente sensível a forma como a obra desenha este lugar. Há otimismo, compaixão e nos faz refletir, de fato, a importância da inclusão em relação às pessoas surdas que poucas vezes ganharam espaço no cinema e na sociedade. É um tema de extrema relevância e guiado com delicadeza pela produção. Destaque, também, para o ator Paul Raci, que passa a ser seu mentor neste novo lugar. É um coadjuvante de ouro, que brilha e emociona em cena.

Todo o trabalho de som é absurdamente bem explorado aqui. É brilhante como a câmera está sempre muito bem posicionada e como ela influencia na maneira como o som é aplicado. Dependendo da perspectiva, seja do protagonista, seja do mundo de fora, é interessante como a equipe consegue criar essa diferenciação e como consequência, nos fazer adentrar ao universo a qual Ruben se encontra. É incômodo quando sua audição é cortada ou, até mesmo, quando o diretor nos censura a ouvir certos sons que para nós é tão natural. O filme nos dá esta dimensão do silêncio e o que ele provoca na mente do personagem. É imenso quando ele ouve música através de uma matéria física, sentindo as vibrações pelo toque. Este é o som do metal. Neste sentido, o instante final da obra é de uma beleza e poesia inigualável. Ruben finalmente se encontra e não é uma trajetória fácil.

Viver é estar em uma montanha russa. Sempre rodando, sempre nos levando para um novo trilho. Às vezes acontece de estarmos no alto, outras somos arrastados para baixo. E quando isso acontece precisamos saber lidar com o que a vida nos oferece. Talvez seja intrínseco do ser humano saber se adaptar, enxergar como é possível se moldar a uma nova circunstância. E só cabe a nós mesmos nos salvarmos, ouvir o que há lá dentro. E não há nada mais barulhento do que o som que vem de dentro. Eu senti a dor, a angústia, o medo, o aperto no peito. “O Som do Silêncio” me fez sentir e me entregou uma das experiências mais incríveis que tive vendo um filme este ano.

NOTA: 9,5

  • País de origem: EUA
    Ano: 2020
    Título Original: Sound of Metal
    Disponível: Prime Video
    Duração: 130 minutos
    Diretor: Darius Marder
    Roteiro: Darius Marder, Derek Cianfrance
    Elenco: Riz Ahmed, Olivia Cooke, Paul Raci, Mathieu Amalric