Crítica: A Vida Extraordinária de David Copperfield

O observador de histórias

Com grande elenco e uma narrativa dinâmica, “A Vida Extraordinária de David Copperfield” vem com o intuito de trazer uma nova roupagem a um dos maiores clássicos do autor britânico Charles Dickens. A adaptação, que vem recheada de humor e personagens caricatos, também pretende ser uma homenagem ao romancista, logo que a jornada deste excêntrico protagonista tem tons autobiográficos.

Dev Patel é quem dá vida a David Copperfield. É um personagem clássico, que enfrenta diversas fases na vida, desde maus tratos por seu padrasto, exploração no trabalho, até enfrentar dificuldades quando adulto. É ele se encontrando nesse mundo, buscando sua própria voz, sua identidade e seu talento como contador de histórias. Copperfield encontrará diversas pessoas em seu caminho, cada uma com suas características peculiares do qual ele observa com muita atenção. Tudo isso é ilustrado com um belíssimo visual, que espanta pela riqueza de cores e detalhes. Os figurinos e cenários são de uma beleza hipnotizante.

Encontramos aqui uma obra ambiciosa, que pretende ser épica, mas infelizmente não tem força. Seu fôlego se desgasta rápido e logo nos vemos presos a inúmeras situações do qual não sentimos nenhuma conexão ou interesse. Armando Iannucci, criador e roteirista da série Veep, parecia a escolha certa para o projeto, mas ainda que ele capriche na direção, seu roteiro não tem vida. Ele acelera o passo para dar tempo de contar tudo o que pretende, mas esses tantos personagens que nos apresenta dentro desse universo tão lúdico, pouco desperta afeição ou algum tipo de sentimento. Vemos belas palavras condensadas em um texto que pouco diz.

Dev Patel é um ótimo ator e aqui se esforça, apesar de ser um protagonista confuso e não muito interessante. Ele divide a cena com um grandioso elenco que faz a obra valer mais a pena. Tilda Swinton está impecável. Temos ainda boas presenças de Hugh Laurie, Peter Capaldi e da carismática revelação de Rosalind Eleazar.

“A Vida Extraordinária de David Copperfield” falha nesta missão de modernizar a literatura de Charles Dickens. Acerta na produção, que é deslumbrante, mas peca na construção de seu universo e nesses tantos personagens que tão pouco nos importamos.

NOTA: 6,0

País de origem: EUA, Reino Unido, Irlanda do Norte
Ano: 2019

Título original: The Personal History of David Copperfield
Duração: 119 minutos

Disponível: HBO Max
Diretor: Armando Iannucci
Roteiro: Armando Iannucci, Simon Blackwell
Elenco: Dev Patel, Hugh Laurie, Peter Capaldi, Tilda Swinton, Morfydd Clark

Crítica: O Esquadrão Suicida

o retorno triunfante

O ano é 2016, ao som de Queen, um trailer ambicioso surgia e o filme se tornava uma grande promessa. O tombo veio e “Esquadrão Suicida” foi esmagadoramente criticado pelo público e crítica. Logo, uma sequência parecia o caminho mais tolo a ser seguido. É então que o projeto cai nas mãos certas e James Gunn, ainda que traga alguns personagens de volta, reinicia com vigor a franquia, entregando um produto autêntico e extremamente eficiente.

Autenticidade é uma palavra rara a ser usada quando falamos do universo dos heróis, em geral, no cinema. Quando se encontra a fórmula do sucesso, não há criador que possa interferir. É assim que assistir a um filme claramente assinado por um diretor traz frescor, um respiro necessário. “O Esquadrão Suicida” não é apenas muito prazeroso de assistir como também comprova a esperteza de James Gunn. Traz estilo sim, mas o grande acerto aqui se encontra no texto, que sabe dosar o humor, a dramaticidade e, principalmente, sabe como valorizar seus bons personagens. Cada um tem seu momento de glória ali e, como consequência, muito diferente do que havia sido feito antes, nos afeiçoamos a cada um deles, vibramos pela jornada, pelas conquistas.

Já nos primeiros minutos, temos uma virada genial na narrativa. E, felizmente, o roteiro é esperto o bastante para manter esse fator surpresa até o fim. A obra tem uma premissa extremamente simples, onde os nossos supervilões são recrutados pela Força Tarefa X que, para uma redução de sentença, aceitam salvar o mundo de uma grande ameaça e destruir um projeto militar. A grande graça aqui é ver esses personagens desajustados se unindo por um único objetivo. Há sintonia entre todos eles e o elenco se mostra muito à vontade. Margot Robbie enche a tela com seu brilho e Idris Elba, John Cena e a revelação Daniela Melchior se mostram adições adoráveis. É incrível como todos eles funcionam e como o diretor sabe, inclusive, fazer um tubarão e uma doninha darem certo na tela. Ele abraça o nonsense, entregando uma obra imprevisível e divertidíssima.

Existe nas entrelinhas de “O Esquadrão Suicida” um debate audacioso sobre a presença massiva do governo norte-americano nos crimes de guerra e o que eles são capazes de fazer para omitir tal interferência. Ao fim, em um filme cercado de personagens de caráter duvidoso, o grande vilão é o próprio país e aquele que trai usando discursos pacíficos e patriotas. É irônico e traz provocação em suas boas reviravoltas.

A obra vem, claro, cercada de boas cenas de ação e com um visual caprichado. Depois de “Guardiões da Galáxia”, James Gunn acerta novamente, trazendo não apenas uma energia revigorante como, também, muito coração.

NOTA: 8,5

País de origem: EUA
Ano: 2021

Título original: The Suicide Squad
Disponível: HBO Max
Duração: 132 minutos
Diretor: James Gunn
Roteiro: James Gunn
Elenco: Idris Elba, Margot Robbie, John Cena, Daniela Melchior, Viola Davis, David Dastmalchian, Peter Capaldi, Alice Braga