Crítica | Passagem

O retorno morno de Jennifer Lawrence

Temos aqui quase que um recomeço para Jennifer Lawrence. A atriz acabou saturando a própria imagem depois de estrelar superproduções e os Oscar bait do David O.Russell. Apesar de ter lançado “Não Olhe Para Cima” ano passado, essa pausa e um espaçamento maior entre seus trabalhos, tem feito um bem enorme e hoje seu retorno é extremamente bem-vindo. É muito bom poder vê-la protagonizando novamente histórias mais simples e intimistas, assim como no começo de sua carreira com filmes como “Inverno da Alma”. Infelizmente, porém, “Passagem” não tem muito a oferecer além das boas atuações.

Lawrence interpreta Lynsey, uma engenheira militar que é forçada a voltar para casa depois de sofrer uma lesão cerebral durante uma explosão no Afeganistão. Dirigido por Lila Neugebauer, é bem curioso como a obra trabalha em cima de uma situação já muito comum no cinema – essa narrativa do soldado que volta da Guerra – mas a inverte, colocando uma mulher ao centro. Apesar dessa interessante mudança, o roteiro pouco se esforça para entregar uma visão nova sobre o tema, seguindo, ainda, aquele antigo template de filmes indies com pessoas traumatizadas tentando se reerguer.

“Causeway”, título original, significa ponte e isso muito se relaciona com a trajetória de Lynsey. É ela precisando enfrentar essa passagem até o outro lado. Esse destino futuro em que ela possa encarar seus tantos traumas e recomeçar. Neste seu trajeto, a protagonista acaba esbarrando com o do mecânico James, também ferido por um evento do passado. Ambos acabam criando um vínculo inesperado e sendo o suporte um do outro. O grande brilho da obra vem justamente desse encontro e dessa interessante troca entre os dois personagens e, claro, da excelente performance de Brian Tyree Henry.

Confesso que eu tive uma certa dificuldade em criar empatia pela protagonista e, como consequência, não me conectei ao seu drama. Além de ser, no mínimo intrigante, o fato dela querer voltar para o lugar que lhe causou tantos danos, o roteiro nunca deixa claro essa relação que ela tem com o exército e sua família. Existem muitas lacunas aqui e o texto peca ao acreditar que ao esconder tantas informações do público, o tornaria mais instigante, denso ou até mesmo mais surpreendente, quando na verdade só o torna mais vazio.

“Passagem” é tão minimalista, mas tão minimalista que, ao fim, é difícil extrair alguma emoção dele. A cena da prisão, quando Lynsey conversa com o irmão, me fez entender o que me distanciou do filme, porque todo o sentimento se condensa ali. É uma sequência simples, assim como toda a produção, mas se difere quando apresenta humanidade e sensibilidade que tanto falta ao resto. Ótimo poder rever Jennifer Lawrence, mas muito aquém do que esse retorno merecia. Ficamos no aguardo do próximo.

NOTA: 6,5

País de origem: Estados Unidos
Ano: 2022
Titulo original: Causeway
Duração: 92 minutos
Disponível: Apple TV+
Diretor: Lila Neugebauer
Roteiro: Ottessa Moshfegh, Luke Goebel, Elizabeth Sanders
Elenco: Jennifer Lawrence, Brian Tyree Henry, Linda Emond, Stephen Henderson