Crítica | Memórias de Um Amor

como poeira de estrelas

Somos todos feitos de poeira de estrelas. E como todas as estrelas, também temos nosso ciclo de vida. É com a analogia de uma Supernova que conhecemos a jornada de Tusker (Stanley Tucci), escritor e admirador de astronomia que, ao ser diagnosticado com demência em estado precoce, decide fazer uma última viagem ao lado de Sam (Colin Firth), com quem está casado há vinte anos. É uma jornada de agradecimento, de revisitar lugares em que estiveram juntos e apreciar este momento presente, do qual sua memória ainda tem controle.

Escrito e dirigido pelo estreante Harry Macqueen, o filme cria uma atmosfera melancólica e doce, tratando com bastante sensibilidade está união entre os dois homens. Durante uma viagem com belíssimas paisagens, eles precisam encarar este medo que enfrentam, de que a vida deles não será mais a mesma. De que eles não serão mais os mesmos.

Colin Firth e Stanley Tucci estão fantásticos aqui e apenas pela entrega dos atores conseguimos entender essa forte conexão que há entre os personagens. Há muito sentimento nos olhares, nos toques e principalmente no silêncio. A cena do brinde é o ponto alto do filme. Quando um fala através das palavras do outro em em um texto comovente sobre agradecimento.

Ainda que tenha muitas qualidades, é decepcionante o rumo que o filme vai tomando ao fim. Ao mesmo tempo em que o roteiro coloca seus personagens em situações difíceis, não deixa de ser caminhos fáceis para a narrativa, sem muita coragem. Tenta comover, mas falha quando o que nos revela é desconfortavelmente previsível. É extremamente delicado falar sobre demência e me surpreende o quão irresponsável emocionalmente acaba sendo no ato final, se distanciando daquela sensibilidade e maturidade que havia anunciado ao início. Mesmo assim, vale assistir pelo casal principal e pela força dos dois atores em cena.

NOTA: 7,0

País de origem: Reino Unido, Irlanda do Norte
Ano: 202
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Título original: Supernova
Duração: 93 minutos
Diretor: Harry Macqueen
Roteiro: Harry Macqueen
Elenco: Colin Firth, Stanley Tucci

Crítica: Memórias de um Amor

Memória háptica

Uma mistura interessante entre “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças” e a viagem dentro das memórias com “Sentidos do Amor”, o relacionamento que nasce em uma crise pandêmica. Provavelmente quando foi planejado, “Little Fish” não tinha intenção de dialogar tanto com o que a sociedade viria a presenciar, logo que foi finalizado antes mesmo da COVID. É assim, que hoje, a obra vem com um peso enorme, porque conversa com nossos medos atuais e esta incerteza do amanhã.

A sociedade é devastada por uma doença nova. Os sinais desse vírus é o esquecimento. Pessoas em cada canto do mundo começam a perder a memória e é neste cenário caótico que Emma (Olivia Cooke) decide escrever sua história de amor ao lado de Jude (Jack O’Connell), antes que pudesse esquecer. É assim que mergulhamos nas lembranças do casal, dos instantes de glória e excitação pela novidade à rotina, aos momentos de perda. Enquanto ela regista em palavras, ele registra com a fotografia. Ambos lutando por permanecer.

Essa jornada apresentada em “Little Fish” funciona não apenas por ter dois excelentes atores como casal, mas também pela incrível produção que enriquece cada instante. A direção de Chad Hartigan é bastante assertiva e entrega um produto sensível ao falar sobre esquecimento e apaixonante ao falar sobre amor, sobre a vida a dois. O trabalho de direção de arte também engrandece a experiência, ilustrando com muito cuidado cada detalhe, como quando altera uma mesma cena para mostrar essa memória em mutação, que se equivoca. Há poesia nessas escolhas e muito coração também.

O roteiro é belíssimo e nos leva junto a vivenciar a história do casal, nos envolvendo em cada diálogo, em cada troca de afeto. Onde início e presente nunca é certo, nos enganando, nos fazendo duvidar ao lado deles. Em “Little Fish”, amor é memória, uma narrativa de soma, uma construção. Sem memória não nos resta nada, nenhum apego, nenhuma marca do que vivemos. Quantas histórias guardamos em uma foto? Quantas lembranças nos despertam com o toque, com o olhar. Aquele ato simples mas que nos traz a certeza do porquê amamos, do porque queremos estar ali naquele presente, mesmo que o futuro não exista.

NOTA: 8,5

País de origem: Canadá, EUA
Ano: 2021

Título original: Little Fish
Duração: 101 minutos
Diretor: Chad Hartigan
Roteiro: Aja Gabel, Mattson Tomlin
Elenco: Olivia Cooke, Jack O’Connell, Raúl Castillo