Crítica | Não Se Preocupe, Querida

Belo e superficial

Estranho pensar em como a mesma dupla responsável pelo excelente “Booksmart” chegou aqui. Saindo de uma deliciosa e leve comédia, a diretora Olivia Wilde retoma sua parceria com a roteirista Katie Silberman para alcançarem o almejado mundo das premiações. É altamente pretensiosa essa pataquada criada pelas duas, que peca justamente por acreditar piamente ser um experimento artístico que nitidamente não é.

“Não se Preocupe, Querida” ficou marcado por suas tantas polêmicas de bastidores. A sucessão de fofocas aguçou a curiosidade em torno da obra e deixou o público muito mais intrigado com o que aconteceu nas filmagens do que com o filme em si. Infelizmente, esse novo trabalho de Wilde é tão pobre que não consegue apagar essa ideia de que o que rolou por trás dele seja muito mais interessante mesmo. Temos aqui um apanhado de clichês, seja visual ou narrativo, tornando a produção completamente sem personalidade. Teria sido incrível, porém, se não se levasse tão a sério e abraçasse com ironia essa sua breguice.

Em uma vibe semelhante à “Mulheres Perfeitas” (2004), a trama também acontece em uma vizinhança que simula o subúrbio norte-americano dos anos 50. Uma comunidade que visa sempre a felicidade de seus comportados moradores. Nesse lugar, as esposas cuidam do lar enquanto aguardam seus maridos sedentos por sexo chegarem do trabalho. Alice, a protagonista vivida com garra por Florence Pugh, começa a suspeitar dessa realidade, confrontando as crenças de todos e buscando pelos segredos que ali habitam.

Uma estranha sensação de déjà-vu ronda toda a produção, não só porque desde o início já suspeitamos todos os passos da personagem como por todo esse lugar comum do qual a obra leva seus debates. É muito claro onde “Não se Preocupe, Querida” quer ir porque já vimos esse caminho muitas vezes. Suas críticas ao patriarcado e machismo são óbvias e chegam sem relevância quando o texto pouco vai além da superficialidade dessas questões. Ao fim, Olivia Wilde tenta cutucar os incels e essa legião de homens feridos, que acreditam que sexo é um direito deles e que precisam proteger as mulheres de terem desejos próprios. Existem resquícios de algumas boas ideias, mas infelizmente termina sem cavar toda a profundidade que esse terreno permitia.

Florence Pugh se esforça e merece destaque, mas essa narrativa de “mulher que surta quando descobre que esse lugar perfeito não é perfeito” é tão batido que chega a ser triste vê-la dando a alma para algo tão pequeno. É triste também vê-la contracenando com a porta que é o Harry Styles, que mesmo aos gritos, não consegue expressar nenhum sentimento.

A trama de “Não se Preocupe, Querida” não supera as polêmicas de seus bastidores. Para piorar, a direção pomposa de Wilde, que nada lembra sua ótima estreia na função, tem a certeza de que está entregando algo revolucionário, com momentos contemplativos e recortes de exposições de arte, quando na verdade só consegue entregar o que poderia ser um episódio fraco de Black Mirror.

NOTA: 6,0

País de origem: Estados Unidos
Ano: 2022
Titulo original: Don’t Worry Darling
Duração: 123 minutos
Disponível: HBO Max
Diretor: Olivia Wilde
Roteiro: Katie Silberman
Elenco: Florence Pugh, Harry Styles, Olivia Wilde, Chris Pine, Gemma Chan, Nick Kroll

Crítica: Let Them All Talk

O improviso da vida

Steven Soderbergh é um dos cineastas mais inquietantes de nosso tempo. É curioso como um diretor veterano ainda se arrisca em produções menores, de baixo orçamento, sempre disposto a oferecer algo novo. Foi em 2018, impressionado pelas novas tecnologias, que ele trocou sua câmera pelo IPhone. É assim que ele lança “Let Them All Talk”, desafiando o cinema tradicional que conhecemos. Equipe enxuta, um celular na mão e uma filmagem que durou uma semana.

O longa conta com o roteiro da estreante Deborah Eisenberg, que escreveu poucas páginas com algumas sequências-base e deixou que os atores improvisassem o resto. O filme quase todo acontece em um transatlântico, onde uma renomada escritora (Meryl Streep) aceita fazer uma viagem para a Inglaterra para receber um prêmio. Ela tem a permissão de levar mais três acompanhantes, é então que entra em cena seu sobrinho e auxiliar Tyler (Lucas Hedges) e duas amigas que não vê por trinta anos, Roberta (Candice Bergen) e Susan (Dianne Wiest).

“Let Them All Talk” é um exercício cinematográfico intrigante, ainda mais quando Soderbergh também se responsabiliza pela fotografia e montagem. É um trabalho soberbo, que jamais escancara suas tantas limitações. Ele ousa nessa possibilidade do improviso também, deixando seus atores à vontade em cena. Nessa intenção de “deixar eles falando”, o longa acerta ao não ser verborrágico e apreciar o silêncio. É assim que o filme se torna um convite a desaceleração, a apreciarmos esse tempo pausado em que a trama segue. Navegamos por essas conversas e por esses desencontros dos personagens. Tem tudo para ser entediante para muita gente, mas de alguma forma me senti seduzido por esse universo e por esses diálogos tão naturais.

A obra mostra essas três mulheres se reunindo depois de um longo período. No entanto, são relações fragilizadas, que não sobreviveram a esse tempo de rompimento. Apesar de terem a mesma idade, cada uma vive um momento distinto na vida, com motivações e aspirações opostas. Enquanto Alice e Roberta travam uma disputa silenciosa ali, Susan parece ser o elo pacificador. Dianne Wiest brilha e entrega o melhor momento do filme em seu discurso inspirador sobre como todos são privilegiados por serem os últimos a verem as estrelas em seu estado natural. As três estão incríveis, na verdade, mas curiosamente Meryl acaba sendo ofuscada pelo carisma das duas coadjuvantes.

Acaba sendo um desperdício, então, juntar três atrizes fantásticas e não lhes entregar o devido espaço, onde tão pouco dividem a mesma cena. Uma escolha equivocada apostar na persona apática e abobalhada de Lucas Hedges quando seu personagem tem quase nada a dizer e, infelizmente, acaba tendo mais destaque do que queríamos e mais do que a obra pedia.

“Let Them All Talk” diverte com sua simplicidade e encanta pela naturalidade das situações. Flui na mesma velocidade da vida, sem encanto, sem grandes momentos, apenas sendo o que é. Pode não causar muito impacto em nós apesar das boas reflexões e diálogos, mas ainda assim é uma experiência agradável e um presente poder assistir três grandes atrizes na tela.

NOTA: 8,0

País de origem: EUA
Ano: 2020
Disponível: HBO Max
Duração: 113 minutos
Diretor: Steven Soderbergh
Roteiro: Deborah Eisenberg
Elenco: Meryl Streep, Lucas Hedges, Candice Bergen
, Dianne Wiest, Gemma Chan