Crítica | Meios-Irmãos

Partidas e recomeços

Como é bom quando começamos a assistir a um filme e ele entrega algo, não apenas mais amplo, como muito melhor do que esperávamos. “Meios-Irmãos” se veste como uma comédia qualquer e, aos poucos, vai se revelando uma produção doce e emotiva, saindo do lugar comum que aparenta gostar. Iniciamos para passar o tempo e saímos dele com o coração tocado e imensamente feliz por ver uma obra tão singela e honesta.

A obra já acerta desde o começo, quando muito bem introduz seus personagens. Quando criança, Renato vê seu pai, que tanto era apegado, saindo de casa no México para morar nos Estados Unidos. Cresceu com a espera do retorno que nunca aconteceu. Adulto (Luis Gerardo Méndez), ele recebe o chamado desse pai ausente decidido a explicar tudo o que o ocorreu em sua vida e porque não pôde voltar. Nessa jornada para solucionar uma série de mistérios do passado, Renato precisa dividir a estrada com Asher (Connor Del Rio), seu meio-irmão que acabou de descobrir a existência.

É então que o filme dá largada para um divertido e imprevisível road movie. Claro que tem como base alguns clichês como quando reúne esses dois indivíduos que são obrigados a dividir o mesmo espaço mesmo se odiando. Eles são opostos e uma hora sabemos que vão se entender. Ainda que use desses elementos desgastados da comédia “pós-Se Beber Não Case” que envolve perseguições e gritarias, o roteiro é esperto e sabe explorar esses exageros sem perder a essência e sem esquecer de construir os personagens. É grosseiro, mas tem alma. Carrega consigo, nessa imprevisível viagem, muito carinho por esses encontros que narra, revelando boas intenções ao final.

Com um protagonista mexicano, “Meios-irmãos” faz uma bem-vinda crítica sobre como o país sempre foi retratado no cinema hollywoodiano. México sempre precisou do filtro amarelado para dizer sobre Cancún e cartéis de drogas. Existe muita história ali que ninguém se importou em conhecer. História, inclusive, de gente que largou tudo para tentar ter uma vida melhor em outro solo. A revelação que vem, ao fim, é bela e acaba sendo um registro surpreendentemente sensível sobre essas dolorosas partidas e recomeços. O final é de grande comoção e facilmente nos faz perder o riso e aceitar as lágrimas. É bonito e ganha ainda mais força pela ótima presença do ator Juan Pablo Espinosa.

Uma comédia prazerosa e que sabe muito bem trilhar ao drama, alcançando o ápice em um poderosíssimo encerramento. Bela surpresa.

NOTA: 8,5

País de origem: EUA, México
Ano: 202
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Título original: Half Brothers
Duração: 95 minutos
Diretor: Luke Greenfield
Roteiro: Jason Shuman
Elenco: Luis Gerardo Méndez, Connor Del Rio, Juan Pablo Espinosa

Crítica: Duas Tias Loucas de Férias

absurdamente patético, estupidamente brilhante

Comédia é um gênero difícil e tem se tornado um item escasso no cinema atual. Nos últimos anos, conseguimos somar na mão as melhores que assistimos. Quando ganham vida, são poucas as que trazem algo novo, refrescante e digno de nota. Dez anos depois de “Missão Madrinha de Casamento” – parece exagero, mas falo tranquilamente que é minha comédia favorita da última década – as roteiristas Annie Mumolo e Kristen Wiig, que aqui também protagonizam, se reúnem novamente e provam, mais uma vez, a força e brilhantismo desta parceria.

Ignore a bizarra tradução nacional e vá com o coração aberto. “Barb and Star Go To Vista Del Mar”, no original, é uma comédia pura, inventiva e que sai constantemente do lugar comum. Anna e Kristen interpretam duas amigas de longuíssima data, Barb e Star, que dividem o quarto, o trabalho, a rotina, o amor pelo nome Trish, onde ambas se sentem confortáveis dentro de um culotte e vivendo uma vida sem muito brilho ao início da meia-idade. Quando esta rotina que seguem é abalada, elas decidem que é hora de viver uma grande aventura e aceitam o convite do destino para uma viagem à paradisíaca Flórida, ao luxuoso hotel Vista Del Mar. Lá, elas se envolvem com o bonitão Edgar (Jamie Dornan), um caranguejo falante e uma vilã determinada a acabar com toda a cidade.

Nada faz muito sentido em “Barb and Star” e é maravilhoso em como a obra abraça com força o nonsense. Aqui não tem nada de “piada pronta” e, ainda assim, o roteiro consegue fluir de forma natural, extraindo humor das situações mais improváveis. A dupla garante o riso do começo ao fim, sem forçar, apelar, apenas pelo talento das duas atrizes em cena e do ótimo texto. É simplesmente hilário cada pedaço desse filme, me fazendo rever cenas e ficar repetindo na minha cabeça os diálogos. Ficarei ainda, por muito tempo, rindo das reuniões de tópicos para conversa com as “amigas”, delas impedindo de vender um sofá só porque gostavam muito dele ou delas fazendo a mala para a viagem e preferindo levar uma corda e um cortador de pizza. É tudo absurdamente patético, estupidamente brilhante.

O diretor Josh Greenbaum vem de uma carreira tímida por trás de episódios soltos de séries de TV. Por isso, chega a ser surpreendente sua condução aqui, entregando um produto novo, extravagante – kitsch até – colorido e empolgante, que jamais tem receio de ser idiota ou de se entregar ao musical simplesmente porque sim. Claro que o grande destaque vai para as duas atrizes e roteiristas que desenvolveram novamente uma comédia relevante. É aquele filme que precisávamos e até agora não sabíamos. Só espero que elas não demorem mais dez anos para retornar. O cinema carece de obras assim e é um prazer enorme quando este encontro acontece.

NOTA: 8,5

  • País de origem: EUA
    Ano: 2021
    Título original: Barb and Star go to Vista Del Mar
    Duração: 107 minutos
    Diretor: Josh Greenbaum
    Roteiro: Kristen Wiig, Annie Mumolo
    Elenco: Kristen Wiig, Annie Mumolo, Jamie Dornan, Damon Wayans Jr.