Retrospectiva 2020: os destaques do ano

2020 foi um ano estranho. A pandemia do coronavírus impactou diversos setores e o cinema foi um deles. Foi um ano atípico para a sétima arte que teve que dar seus pulos para se manter na ativa. É estranho olhar para trás e perceber que não tivemos grandes lançamentos na tela grande. No começo, alguns filmes estavam preparando terreno para o que viria nos próximos meses como “Aves de Rapina” e a bela surpresa “O Homem Invisível”. As obras que estamparam as listas do Oscar também fizeram bonito e indicavam um bom ano cinematográfico como “1917”, “Jojo Rabbit” e “Adoráveis Mulheres”. Eis que tudo parou e, o mais assustador, sem previsão de retorno.

Foi aí que os mais aguardados lançamentos tiveram suas datas alteradas, duas, três, quatro vezes até saírem oficialmente do calendário de 2020. Algumas distribuidoras ainda arriscaram levar alguns títulos ao cinema, chegando produções como “Novos Mutantes” e “Tenet”, que tinha como intuito trazer o público de volta. Não deu certo, não era o momento. “Mulher-Maravilha 1984” conquistou mais retorno, mas as críticas negativas talvez o tenham impedido de crescer mais. Não tivemos Marvel neste ano, o que não acontecia desde…sei lá quando.

É neste cenário que as plataformas de streaming ganharam a confiança do público brasileiro, como a única fonte de novos filmes. A “Netflix” tornou possível as discussões sobre cinema, sobre lançamentos, sobre novidades. Apostou nos “blockbusters” como “Old Guard”, “Resgate” e “Power”, além de ser o espaço para diretores consagrados retornarem como David Fincher, Ron Howard e Charlie Kaufman. O “Prime Video” também se mostrou necessário com lançamentos relevantes como a sequência de “Borat” e um dos melhores do ano, “O Som do Silêncio”. Veio ainda, para acrescentar, o Disney Plus, que trouxe novidades aguardadas como o live action de “Mulan” e a animação da Pixar “Soul”.

Tendo tudo isso em mente, venho aqui para enaltecer as produções que tivemos neste insano 2020. Criei uma premiação fictícia, reunindo em 16 categorias técnicas, filmes que merecem destaque. Selecionei todos aqueles lançados no Brasil entre janeiro e dezembro. Espero que gostem.

1. Jóias Brutas
2. O Som do Silêncio
3. The Forty-Year-Old Version
4. Soul
5. A Arte de Ser Adulto
6. On The Rocks

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1. Jojo Rabbit
2. Má Educação
3. Adoráveis Mulheres
4. Luce
5. O Preço da Verdade – Dark Waters
6. O Diabo de Cada Dia

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1. Soul
2. Wolfwalkers
3. Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica
4. Os Irmãos Willoughby
5. A Caminho da Lua

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1. 1917
2. O Farol
3. Uma Vida Oculta
4. Monos
5. Retrato de Uma Jovem em Chamas
6. Devorar

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1. 1917
2. Emma.
3. Mulan
4. Jojo Rabbit
5. A Verdadeira História de Ned Kelly
6. Mank

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1. Emma.
2. Adoráveis Mulheres
3. Mulan
4. A Voz Suprema do Blues
5. Aves de Rapina
6. Enola Holmes

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1. Estou Pensando em Acabar com Tudo
2. O Escândalo
3. Mulan
4. Power
5. A Verdadeira História de Ned Kelly
6. Aves de Rapina

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1. 1917
2. Tenet
3. Mulan
4. O Céu da Meia-Noite
5. O Homem Invisível
6. Mulher-Maravilha 1984

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1. Jóias Brutas
2. O Som do Silêncio
3. Tenet
4. As Ondas
5. Estou Pensando em Acabar com Tudo
6. O Homem Invisível

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1. Trent Reznor e Atticus Ross (Soul)
2. James Newton Howard (Uma Vida Oculta)
3. Alexandre Desplat (Adoráveis Mulheres)
4. Hans Zimmer (Era Uma Vez um Sonho)
5. Ludwig Göransson (Tenet)
6. Oneohtrix Point Never (Jóias Brutas)

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1. Stand Up (Harriet)
2. Queen Bee (Emma.)
3. Nobody Knows I’m Here (Ninguém Sabe Que Estou Aqui)
4. Only the Young (Miss Americana)
5. My Power (Power)
6. Into The Unknown (Frozen 2)

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1. Os 7 de Chicago
2. Adoráveis Mulheres
3. A Voz Suprema do Blues
4. O Diabo de Cada Dia
5. Jojo Rabbit
6. Luce

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1. Helena Zengel (Transtorno Explosivo)
2. Sidney Flanigan (Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre)
3. Roman Griffin Davis (Jojo Rabbit)
4. Jodie Turner-Smith (Queen e Slim)
5. Betty Gilpin (A Caçada)
6. Maria Bakalova (Borat: Fita de Cinema Seguinte)

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1. Darius Marder (O Som do Silêncio)
2. Carlo Mirabella-Davis (Devorar)
3. Andrew Patterson (A Vastidão da Noite)
4. Radha Blank (The Forty-Year-Old Version)
5. Kitty Green (A Assistente)
6. Nora Fingscheidt (Transtorno Explosivo)
7. Lulu Wang (A Despedida)
8. Melina Matsoukas (Queen & Slim)
9. Dave Franco (Vigiados)

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1. Céline Sciamma (Retrato de Uma Jovem em Chamas)
2. Sam Mendes (1917)
3. Terrence Malick (Uma Vida Oculta)
4. Ben e Josh Safdie (Jóias Brutas)
5. Robert Eggers (O Farol)
6. Trey Edward Shults (As Ondas)
7. Greta Gerwig (Adoráveis Mulheres)
8. Todd Haynes (O Preço da Verdade – Dark Waters)
9. Sofia Coppola (On The Rocks)

Crítica: A Caçada

A arena virtual ganha vida.

“O filme mais falado do ano é o filme que ninguém viu”. É assim que a divulgação de “A Caçada” nasceu, principalmente depois que o presidente Trump demonstrou estar incomodado com a obra em sua conta do twitter. Ainda que seja bem menos polêmico do que se vendeu, o longa traz uma sátira política que pode, digamos, ofender muitos lados e esta é sua grande ousadia. Ao ironizar tanto os republicanos quanto os democratas, é possível que um grande grupo saia um tanto quanto ofendido de seus discursos. Mesmo que seja uma piada, a carapuça pode servir em alguém.

Em nenhum momento a obra se leva a sério ou tenta discutir algo com profundidade. Isso não é negativo principalmente por deixar claro, desde a primeira sequência, de que estamos diante de algo forçado e com intenção de sarcasmo. Logo no começo, algumas pessoas acordam em um local desconhecido e percebem que são alvos de caça de um grupo fortemente armado. Em uma vibe bem Bacurau e sem entender bem o que está acontecendo, todos passam a lutar pela sobrevivência. Entre cabeças explodindo e uma perseguição eletrizante, é interessante como o roteiro vai destruindo – através de mortes inesperadas – vários arcos narrativos que previamente vamos construindo em nossa cabeça. Da mocinha indefesa ao iminente casal romântico. A imprevisibilidade é a grande arma e nos deixa apreensivos sobre qual será exatamente o rumo daquela jornada. É assim que o filme demora a revelar sua verdadeira protagonista, que ganha força pela expressiva Betty Gilpin.

O extermínio, logo se explica, foi organizado por um grupo da elite liberal que decide matar, de forma gratuita, uma classe rural menos favorecida, todos eles assumidamente republicanos. Assim que as peças desse tabuleiro ganham nomes e seus ideais são expostos, “A Caçada” acaba por trazer um certo desconforto, principalmente quando não é a forma como vemos a situação política atual, sendo incômodo ver os “liberais” em tal posição. É uma obra provocativa, que faz piada daquilo que evitamos ver. Que satiriza a hipocrisia que nem sempre olhamos. Os democratas revelados aqui vivem na elite, distantes das imperfeições do mundo que tanto gostam do apoiar. Praticam com voracidade aquele típico ativismo de sofá. Eles querem salvar a sociedade mas estão confortáveis demais na redoma de vidro em que vivem. Os republicanos também não surgem como vítimas e de certa forma, as ironias expostas aqui se assemelham e muito ao movimento de direita que temos no Brasil. São pessoas agressivas no mundo virtual, que criam teorias incabíveis, compartilham informações tolas e criam batalhas em um simples comentário de internet. Ainda que o roteiro se apoie em estereótipos e em versões caricatas desses dois grupos, a piada funciona e deixa um gosto amargo por suas provocações. O embate final é ridículo, no bom sentido, pois expõe com toda sua ironia como seria esse confronto real entre esses “monstros politizados” que nascem nas redes sociais.

A cabeça por trás desse audacioso projeto é Damon Lindelof, conhecido por séries como Lost, The Leftovers e Watchmen. Apesar dos ótimos discursos, “A Caçada” soa quase como um bom esboço. Nenhuma ideia cresce ou ganha a atenção devida. A protagonista nasce e termina como um grande enigma e justamente por isso é difícil criar alguma empatia por ela ou tentar desvendar esse universo ao seu lado. Apesar da boa atuação, estamos sempre distantes dela, nunca no mesmo passo. A violência e impacto de seus minutos iniciais também somem e dão lugar a uma jornada sem a mesma força que seu poderoso e imprevisível começo. A adrenalina, a aflição e tudo aquilo que poderia crescer e se tornar um grande baque na obra, segue um rumo instigante sim, mas longe do caos que anuncia lá em sua poderosa introdução.

A sequência final é divertidíssima e facilmente nos remete a um dos embates mais marcantes de Kill Bill. Tem umas reviravoltas interessantes e apesar de não ser tão potente quanto prometia, temos aqui um entretenimento que vale a pena, que consegue prender a atenção e nos manter atentos à suas ótimas sacadas. Vejo que a intenção aqui não é atacar nenhum idealismo político mas sim criar um cenário satírico onde é colocado em combate todos os valentões politizados da internet que vomitam versões de uma verdade que somente eles acreditam. Nesse universo protegido onde não possuem nome, apenas a coragem de usar caps lock sem nenhum senso de justiça.

NOTA: 7,5

  • País de origem: EUA
    Ano: 2020

    Título original: The Hunt
    Duração: 107 minutos
    Distribuidor: Universal Pictures
    Diretor: Craig Zobel
    Roteiro: Damon Lindelof, Nick Cuse
    Elenco: Betty Gilpin, Hilary Swank, Wayne Duvall, Ike Barinholtz, Emma Roberts