Crítica: Objetos Cortantes

As consequências do corte

Por muito tempo as pessoas me recomendaram esta minissérie, mas sempre deixei para depois. Apesar de ter Amy Adams no elenco, nada mais me atraia muito. Agora presente no catálogo da HBO Max, resolvi dar uma chance. E foi a melhor coisa que fiz.

“Objetos Cortantes” começa não muito bem, preciso ressaltar. Os três primeiros episódios apresentam o universo de forma entediante. A jornalista Camille, interpretada brilhantemente por Amy Adams, volta para sua cidade Natal para escrever sobre o assassinato de uma adolescente. Nada disso é novidade e a produção não se esforça em tornar muito atrativo também. Em sua estadia, passa a dormir na antiga casa, precisando conviver com sua família, do qual não guarda nada além de ressentimentos. São relações tóxicas e que causam um constante desconforto. Ali, naquela pequena cidade, ela é assombrada por suas lembranças e dominada por seus vícios autodestrutivos.

A grande genialidade da minissérie é que toda essa introdução nos despista do que realmente pretende falar. Todos os indícios estão ali, só estamos olhando para os detalhes errados. Baseado no livro de Gillian Flynn, “Objetos Cortantes” vai seguindo um rumo interessantíssimo. Pausado, silencioso, mas imensamente intrigante. Com o decorrer dos episódios, o show ganha vida e nos vemos completamente imersos nesse seu universo, tentando entender esses fragmentos do passado da protagonista e tudo o que ela enfrentou para chegar aqui. São histórias de abusos, controle, violência e luto. Nem tudo é tão claro, mas a grandeza da interpretação de Amy Adams é justamente essa. Seu olhar e sua postura dizem muito e nos carrega ao seu lado.

O elenco ainda traz ótimas atuações da veterana Patricia Clarkson e a grata revelação de Eliza Scanlen. A jovem atriz impressiona, entregando uma coadjuvante de peso e de grande complexidade. A direção fica por conta de Jean-Marc Vallée que, por vezes, peca nessa montagem estranhamente picotada que traz de “Big Little Lies”, mas também encanta e nos seduz pela forma como vai guiando o show. A direção de arte também se destaca, onde a casa onde os grandes conflitos acontecem é abarrotada, cercada de objetos de outro tempo, que apesar de preencherem os espaços, não possuem vida. Seus florais são mórbidos, fúnebres, ilustrando com perfeição o estado em que as personagens se encontram.

Ao decorrer dos episódios, a minissérie vai deixando rastros sobre suas reais intenções e quando a verdade nos alcança compreendemos o brilhantismo do roteiro, que não entrega nada de forma óbvia. “Objetos Cortantes” termina em seu ápice. A virada final surpreende, se encerrando de forma espetacular.

A cidade está matando as garotas. É neste cenário desesperançoso que a protagonista se vê obrigada a confrontar toda a sua dor. Essa dor que ela precisa exteriorizar, carregar na pele, sentindo a punição por ainda estar viva. Essas três mulheres que se encontram, de gerações distintas, também possuem definições distorcidas do que é machucar. E nenhuma delas sabe medir as consequências de um corte.

NOTA: 9,0

País de origem: EUA
Ano: 2018

Disponível: HBO Max
Duração: 429 minutos / 8 episódios
Diretor: Jean-Marc Vallée
Roteiro: Alex Metcalf, Marti Noxon
Elenco: Amy Adams, Chris Messina, Eliza Scanlen, Patricia Clarkson, Henry Czerny

Crítica: O Diabo de Cada Dia

Delírios da fé 

Grande acerto da Netflix, “O Diabo de Cada Dia” é uma adaptação do livro de Donald Ray Pollock que reúne um elenco de atores promissores. A obra narra uma série de histórias e personagens que são conectadas pela violência em uma região esquecida dos Estados Unidos. São indivíduos atormentados por um período entre Guerras, que encontram na fé uma passagem para a salvação. É bem interessante como o roteiro vai costurando essas tantas tramas, que atravessam anos e são cruzadas por pura coincidência ou vontade divina, como o próprio narrador nos alerta. Essa voz onisciente e onipresente é o que nos guia. É ela quem nos permite adentrar na mente conturbada de cada um e na melancolia existente nessas ligações. 

O diretor e roteirista Antonio Campos surpreende ao comandar essa jornada. Ele, que veio de obras menores como “Christine”, volta a investigar os efeitos de se viver em uma sociedade que normalizou a violência e crueldade. Campos acerta na construção da atmosfera, nos fazendo viajar ao tempo e a acreditar naquelas histórias e sentimentos. Há algo de amedrontador que permeia por todas as narrativas. A desumanidade ganha força nos lugares comuns, justamente onde parecia habitar bondade. O longa rapidamente nos faz traçar esse paralelo com a realidade e como a religião e a fé acabam sendo usadas como desculpa para tanta atrocidade. Esse fanatismo religioso é aterrorizante porque ele vem como escudo e porque ele defende o mal como um simples ato de delírio. 

Neste sentido, é interessante a história de vingança de Arvin Russell (Tom Holland) porque ele não combate uma pessoa específica e sim o peso que carrega do passado e sua relação com esse Deus impiedoso. Essa santidade que corroeu sua família e tudo aquilo que ele amava. Essa adoração que nunca trouxe respostas ou que tenha justificado tantos sacrifícios. Trouxe apenas o vazio, a dor, a solidão de ter que viver com tanta perda. Arvin é o que conecta essas tantas histórias. Desde seu pai, um soldado perturbado pela Guerra (Bill Skarsgård) até os inúmeros personagens que vão cruzando seu caminho por puro acaso (ou porque Deus quis assim). A arma, uma Luger alemã, que dizem ter estourado os miolos de Hitler, é outro item que transita por esses tantos ciclos e o objeto amaldiçoado que carrega essas tantas memórias. Ainda que o roteiro acerte na composição de todo este extenso universo, sinto uma leve fragilidade na jornada do xerife, interpretado por Sebastian Stan. Ele era um item importante na história mas jamais fica claro sua real relevância. Sinto que não foi bem explorado essa forte conexão que havia entre ele e Arvin e como ambos eram essas linhas soltas que dariam o último nó ao fim. Como todo filme que se utiliza de narração em off, este infelizmente nem sempre escapa da armadilha de narrar o que, às vezes, é explícito na imagem. Mas no geral funciona e não chega a estragar a experiência. 

Trata-se de um roteiro poderoso, brilhantemente bem escrito. Flui bem por todas as histórias sem perder a unidade, sem oscilar, apesar da longa duração. Mais do que ter em mãos grandes personagens, a obra acerta na escalação e condução dos atores. Independente do tempo de cena de cada um, todos estão bem. Holland nos faz esquecer seu Homem-Aranha e isso é ótimo, visto que nos últimos anos ignoramos a criança promissora que ele era. Jason Clarke e Sebastian Stan são tão bons que criamos um asco enorme por vê-los na tela. O mesmo sentimos por Robert Pattinson que, no entanto, ainda que seja esforçado, não consegue fugir da caricatura. As atrizes Eliza Scanlen, Mia Wasikowska, Riley Keough e Haley Bennett estão ótimas também, mesmo que menores na trama. Destaco Harry Melling pela força e garra ao qual entrega à seu personagem. 

Algumas pessoas nascem apenas para serem enterradas é uma verdade dolorosa. “O Diabo de Cada Dia” traz uma visão pessimista sobre como a nossa jornada e a maldade coexistem. Nosso destino pode alcançá-la a qualquer instante, quando menos esperamos, apenas porque tem que ser assim. A obra, no meio de suas tantas tragédias, faz um relato obscuro sobre a base de nossa atual sociedade e os reflexos que temos na política. Pessoas ordinárias e lunáticas que não tem noção do peso de suas ações e seus crimes bárbaros hoje estão no poder e estão validando o que é certo.

NOTA: 8,5

  • País de origem: EUA
    Ano: 2020
    Duração: 138 minutos
    Título original: The Devil All The Time
    Distribuidor: Netflix
    Diretor: Antonio Campos
    Roteiro: Antonio Campos, Paulo Campos
    Elenco: Tom Holland, Robert Pattinson, Sebastian Stan, Bill Skarsgård, Riley Keough, Jason Clarke, Harry Melling, Eliza Scanlen, Haley Bennett, Mia Wasikowska