Crítica: Passageiro Acidental

Qual vida vale mais?

Me causa um certo fascínio esta ficção espacial lançada pela Netflix. Diferente das últimas lançadas nos últimos anos, “Passageiro Acidental” vem sem os exageros e grandiosidade comuns do gênero. Centrado em apenas 4 personagens dentro de uma nave, essa jornada que eles enfrentam se torna cada vez mais claustrofóbica, não apenas pelos pequenos espaços, mas principalmente pelos dilemas morais que ali são impostos.

Em uma missão a Marte, a vida de três tripulantes é colocada em risco quando descobrem que há mais alguém à bordo, o engenheiro Michael (Shamier Arderson). O grande – e interessante – conflito nasce com a revelação de que não haveria oxigênio suficiente para manter quatro pessoas vivas. De imediato, a única solução possível é matar o quarto elemento. Existe alguma vida menos importante ali? Existe alguém que se sacrificaria pelos demais? São inúmeros questionamentos que vão invadindo aquele espaço, no meio da tensão e desespero que se instaura. É assim que “Passageiro Acidental” se torna um intrigante drama de sobrevivência, mas sem jamais cair na obviedade. Nos faz questionar o que faríamos em uma situação como essa e termina de forma agridoce, provocando essa dúvida silenciosa em nós mesmos.

O grande trunfo, porém, está nas entrelinhas do texto. Nada é muito claro, podendo ter interpretações diversas. Vejo um discurso poderoso aqui sobre o papel do negro na sociedade. Ou melhor, o papel que os outros impregam sobre o homem negro. Nesse universo proposto, não sabemos como Michael foi parar ali e estamos sempre tentando definir qual o lugar dele. Teria ele conseguido aquela vaga pelos esforços e estudos dele? Ele se colocou, colocaram ele? É curioso como nada naquele espaço foi projetado para sua presença. Não existe o traje perfeito, a coberta, a comida. Não existe ar para ele respirar ali. “Passageiro Acidental” faz uma brilhante reflexão sobre qual o caminho queremos para essa sociedade. Estamos realmente prontos para deixá-lo viver? Estamos prontos para um mundo igualitário e altruísta onde todas as vidas têm o mesmo peso?

Dirigido pelo brasileiro Joe Penna, o filme entrega algumas belas sequências como a busca pelo cilindro fora da nave. É um grande momento. No entanto, o filme se enfraquece por não conseguir se aprofundar nesses personagens que sempre parecem tão distantes de nós. Em uma obra que diz muito sobre empatia, pouco sabemos sobre a vida e sentimentos que cada um carrega. É incômodo, também, esta estranha inexperiência dos tripulantes, que pouco demonstram saber o que estão fazendo ali. Apesar da bela premissa e reflexões, o longa deixa, ao fim, uma estranha sensação de que não fomos recompensados. Falta força, mas ainda vale pela experiência fora do comum.

NOTA: 8,0

País de origem: EUA
Ano: 2021
Título original: Stowaway
Disponível: Netflix
Duração: 117 minutos
Diretor: Joe Penna
Roteiro: Joe Penna, Ryan Morrison
Elenco: Anna Kendrick, Shamier Anderson, Toni Collette, Daniel Dae Kim