Crítica: Viveiro

O padrão da vida padrão

Viver uma vida padronizada pode ser assustador e em “Vivarium” essa ideia é levada muito a sério. Imogen Poots e Jesse Eisenberg interpretam um casal de namorados que decidem procurar um novo lugar para morar. Lhes é apresentado o belíssimo projeto Yonder, onde uma vizinhança perfeita é composta por casas idênticas. Sem muita empolgação, eles decidem conhecer, no entanto, acabam caindo em uma armadilha e se veem presos no local. Uma espécie de condomínio fechado, um labirinto sem saída. Não importando por onde caminham, sempre retornam para o ponto de início. O nível mais bizarro acontece quando é entregado, à eles, um bebê e um comunicado dizendo que o único jeito de sair é cuidando dele.

A premissa de “Vivarium” é bem absurda e esta acaba sendo a grande graça do filme, por nos permitir adentrar a uma possibilidade bizarra e estranhamente assustadora. Ruas limpas, casas perfeitas, o cenário do terror aqui se difere do convencional e o pavor que se instaura nos protagonistas é ter que viver uma vida que não programaram, pelo contrário, parece ter sido friamente calculada para eles. O universo proposto pelo diretor Lorcan Finnegan, ainda que bizarro, tem sua própria lógica. No entanto, a cosmologia aqui apresentada, não é explorada da melhor forma. O filme vai deixando de ser instigante quando encontra o tédio e a falta de elementos, até mesmo visuais, o torna repetitivo e desinteressante ao seu decorrer. Sinto que eles não encontraram os melhores caminhos para explorarem a belíssima ideia que tinham lá no começo. É um tipo de proposta que existe espaço para maior imersão, mais detalhes, mais loucura. Mas o próprio roteiro parece se cansar da ideia. A presença do garoto na trama que é, na verdade, o grande foco da história, é de difícil digestão. Mais irritante do que intrigante, como deveria ser. O fim, ao menos, fecha suas pontas de forma coesa e acaba conseguindo despertar em nós, provavelmente, seu intuito. Nos deixar reflexivos sobre seu mundo e um tanto quando fascinados por essa inventiva realidade.

Falta ao filme, também, uma noção de tempo. A trama acontece de forma rápida e pouco entendemos qual foi a duração de tudo aquilo. O tipo de informação que não precisa ser clara, mas não existe nem sugestão disso, o que dificulta ainda mais nossa conexão com os protagonistas, porque nunca sabemos exatamente o quanto de tudo aquilo eles precisaram aturar. É mais difícil ainda quando temos um ator tão limitado quanto Jesse Eisenberg, que em uma repetição de trejeitos, não consegue passar o mínimo de desespero e angústia que o personagem exige. Acaba ficando tudo muito nas costas da talentosa Imongen Poots, que de fato, é a alma do filme.

Na primeira cena de “Vivarium”, uma representação clara da crueldade cíclica da natureza. Um passarinho mata um filhote para que pudesse ocupar seu ninho. Curiosamente, isso revela muito sobre esse universo criado dentro da obra. Podendo haver outras interpretações, vejo Yonder como o ninho desses extraterrestres, que precisam sequestrar um casal jovem que pudesse cria-los e inseri-los na sociedade. Provavelmente por isso eles repetem os gestos e imitam os humanos, como forma de aprendizado. Um ciclo que se repete e se mantém em segredo. Cruel, mas parte da natureza deles, da necessária sobrevivência.

“Vivarium” é um thriller que traz ideias interessantes, que nos faz questionar e tentar encontrar possíveis interpretações ao que nos mostra. No entanto, sinto ser uma grande ideia desperdiçada em uma produção simples, em um filme pequeno demais perto da boa premissa que tinha. Suas boas intenções não são exploradas ao máximo e isso frustra. Termina e deixa a sensação de que poderia ter voado muito mais alto, ter mergulhado de vez à suas bizarrices e não ficado na superfície como ficou. A obra acaba por dizer sobre esse nosso aprisionamento, nesse labirinto cíclico que vivemos. Crescer, casar, ter uma bela casa, um filho. Aprendemos a querer todas essas coisas e vivemos para tê-las. Nossa jornada está traçada e é difícil encontrar uma nova saída. Talvez não queremos essa vida padronizada e “Vivarium” entendeu que não há nada mais aterrorizante que viver o que não se quer.

NOTA: 6,5

  • País de origem: EUA
    Ano: 2019
    Duração: 97 minutos
    Título original: Vivarium
    Distribuidor: –
    Diretor: Lorcan Finnegan
    Roteiro: Lorcan Finnegan, Garret Shanley
    Elenco: Imogen Poots, Jesse Eisenberg