Crítica | The Trip

A armadilha do fator surpresa

“The Trip” é uma comédia norueguesa que repete a parceria entre o diretor Tommy Wirkola com a atriz Noomi Rapace depois do subestimado “Onde Está Segunda?”. É uma produção sanguinolenta, que causa impacto por sua violência gráfica e por trilhar caminhos inesperados nesta sua assustadora e cômica jornada. Apesar de ter, a todo o tempo, uma surpresa na manga, esse recurso nem sempre se mostra tão positivo assim.

Um casal, que já não vive a melhor fase do relacionamento, decide viajar para uma casa nas montanhas, em uma área afastada e que pudesse trazer paz. Essa é apenas a introdução de uma série de infortúnios que começam a acontecer com os dois nessa viagem. Ambos possuem segundas intenções e nada vai seguir como o planejado. A esperteza da obra é nos lançar a um clímax logo em seu início e não deixar a empolgação cair em seu decorrer. É uma narrativa ágil, ácida, que flui por diversos gêneros em uma mistura inesperada de Tarantino com Irmãos Coen.

Tudo é muito insano em “The Trip” e, infelizmente, a obra acaba se sustentando demais na violência gratuita, sem um bom texto para amarrar suas ideias. Há uma necessidade extrema de causar impacto e isso o deixa, por vezes, apenas vazio. O fator surpresa, também, que deveria ser uma arma do roteiro acaba sendo sua maior armadilha. Quer ser surpreendente a todo custo e para isso aposta no Deus Ex Machina nos momentos mais convenientes possíveis. Para tudo se tem uma solução e força muito a barra para salvar seus personagens. Ao fim, deixa de ser inesperado justamente porque sabemos que em algum momento terá uma intervenção salvadora. Dito e feito.

Em minha saga de evitar ver trailer antes do filme, tenho a possibilidade de mergulhar na história sem expectativas. Aconselho ir sem saber nada sobre, porque é o tipo de história que qualquer informação prévia que tenha, pode estragar a experiência. A obra ainda reserva uma ótima sacada para o final e, apesar dessas falhas que cito, vale muito a pena arriscar. E claro, sempre bom rever a fantástica Noomi Rapace em cena.

NOTA: 7,5

País de origem: Noruega
Ano: 2021

Título original: I Onde Dager
Duração: 113 minutos

Disponível: Netflix
Diretor: Tommy Wirkola
Roteiro: John Niven, Nick Ball
, Tommy Wirkola
Elenco: Aksel Hennie, Noomi Rapace

Crítica: The 40-Year-Old Version

A voz da mulher preta

Comédia premiada no Festival de Sundance, “The 40-Year-Old Version” é facilmente uma das produções mais interessantes que a Netflix lançou recentemente. Esta é a estreia de Radha Blank na direção, que entrega aqui algo extremamente pessoal, imprimindo, em seu fascinante texto, sua luta diária como mulher, preta e artista. Ela se coloca como protagonista da própria história e traz honestidade em cada um de seus fortes relatos.

Filmada em preto e branco, a obra faz um recorte na vida de Radha que, próxima de completa 40 anos, começa a refletir sobre o rumo de sua carreira como escritora, que mesmo tendo vencido um importante prêmio da literatura – aos 30 anos – nunca teve, de fato, espaço para realizar sua arte. O longa narra este momento em que ela busca por renascimento e, principalmente, ter finalmente sua voz ouvida. “The 40-Year-Old Version” é o manifesto desta grande mulher. De forma ousada e sincera, Radha aponta uma ferida antiga dentro da arte, seja no cinema, seja no teatro, onde o preto apenas tem espaço para ilustrar uma pobreza estereotipada e servir de troféu para histórias de brancos salvadores. Ela traz humor em seu relato, sem jamais diminuir o impacto de seu poderoso e necessário discurso.

Debute na direção, Blank entrega um produto fascinante, bem conduzido. Seus discursos transbordam naturalidade e encanta ao colocar em cena, instantes tão prazerosos de assistir, guiados por personagens tão carismáticos. Um filme brilhante que, definitivamente, precisava existir.

NOTA: 9

  • Duração: 129 minutos
    Disponível: Netflix
    Roteiro: Radha Blank
    Direção: Radha Blank
    Elenco: Radha Blank, Peter Y. Kim, Reed Birney