Crítica: As Golpistas

Como furacões

“As Golpistas” é tudo o que não esperávamos da cineasta Lorene Scafaria. Ela vem de obras leves, sutis e cheias de comoção. Do musical descontraído “Nick e Norah” à dramédia sentimental “Procura-se Um Amigo Para o Fim do Mundo”. Há beleza e inteligência em seus roteiros e é lindo ver onde ela tem chegado. Seu novo trabalho difere de tudo o que já fez, ainda que nunca esqueça de humanizar as situações que narra, trazendo sempre personagens honestos e que sempre tem muito a dizer. Existe uma agilidade, esperteza e ela domina as tantas técnicas que fazem os “filmes de crime” tão interessantes. Além de trazer um frescor para este subgênero, a obra, enquanto arte, prova que vivemos novos tempos e o cinema teve um avanço significativo. Temos aqui um produto majoritariamente realizado por mulheres. Escrito, dirigido, produzido e com um elenco feito por elas. Nada mais justo quando se fala sobre o universo feminino e é ótimo poder ver as histórias delas sendo, finalmente, contado pelas vozes de quem realmente as entende. É aquele famoso espaço de fala que há pouco tempo atrás parecia não existir.

O filme nos leva ao ano de 2008 e como um grupo de strippers decide se unir para aplicar um golpe nos banqueiros da Wall Street, que na época eram os grandes clientes da boate em que trabalhavam, e como elas se reergueram quando uma das maiores crises econômicas assolou o país. Poderia ser um típico “filme de crime”, com planos mirabolantes e muita câmera lenta enquanto tudo de mais insano acontece, se não fosse o olhar da diretora e roteirista Lorene Scafaria, que além de trazer toda a elegância e dinamismo que um produto como este requer, também traz um olhar terno e verdadeiro sobre seus personagens e todas as situações que enfrentam. Existe alma em cada diálogo, em cada indivíduo e, de alguma forma muito especial, nos afeiçoamos a este universo tão belo que cria, nos apaixonamos por todos os relatos e nesta parceria e cumplicidade existente entre essas mulheres tão fantásticas. O longa ainda se destaca pela belíssima produção, pela montagem caprichada e acelerada e neste ritmo que nos mantém atentos do começo ao fim. Nunca decai e parece sempre ter algo interessante para contar. É um roteiro fascinante, escrito por alguém que sabe como trazer a audiência para dentro de sua ação.

O roteiro, muito bem escrito, traz uma jornalista (a sumida Julia Stiles) que através de entrevistas tenta entender o lado daquelas que foram consideradas criminosas. É assim que conhecemos Destiny (Constance Wu), uma jovem que tenta crescer como dançarina e stripper na boate comandada pela espirituosa Ramona (Jennifer Lopez), que se torna uma espécie de mentora ali. A relação entre as duas personagem é muito forte e ganha traços complexos ao final da obra. É intrigante essa linha tênue entre interesse financeiro e esta amizade fraternal. Existe um senso de proteção, de família, amizade mesmo quando o dinheiro é o que as motiva. Neste sentido, é lindo instantes como uma espontânea festa de Natal entre as garotas ou como uma tenta compreender a outra mesmo quando coloca todo o jogo a perder. Tudo se torna ainda melhor quando atrizes tão competentes entram em cena. Constance surpreende e revela um lado que jamais poderia imaginar vindo dela. No entanto, quem brilha mesmo é Jennifer Lopez. É um papel de uma carreira e é comovente como ela se entrega a sua Ramona. É simplesmente hipnotizante todas as sequências em que aparece. Sua postura, seu sotaque e sua garra que engrandece cada instante. Fiquei feliz de testemunhar essa reviravolta dela e como provou, enfim, ser a grande atriz que é. E apesar de aparecerem pouco, as participações das cantoras Lizzo e Cardi B são ótimas.

“As Golpistas” é um surpreendente evento. Luxuoso, elegante, insano e divertidíssimo. Que lindo poder ver as histórias dessas mulheres, livre de qualquer julgamento e feito por outras mulheres tão interessadas em encontrar humanidade em todas as situações reveladas. Quando as divulgações começaram, parecia apenas um entretenimento barato com mulheres fazendo pole dance. É muito mais do que isso. É uma obra potente, incrivelmente bem realizada e que nos faz sair do cinema com um sorriso largo no rosto. O corte final do filme não poderia ser mais perfeito. Jennifer Lopez nos encara e nos faz entender que vivemos em uma grande boate de striptease. Tem aqueles que jogam dinheiro e tem aqueles que dançam conforme a música.

NOTA: 9

  • País de origem: EUA
    Ano: 2019
    Título original: Hustlers
    Duração: 110 minutos
    Distribuidor: Diamond Films
    Diretor: Lorene Scafaria
    Roteiro: Lorene Scafaria
    Elenco: Constance Wu, Jennifer Lopez, Keke Palmer, Julia Stiles, Lili Reinhart, Madeline Brewer, Cardi B, Lizzo, Trace Lysette